Mostrando postagens com marcador Túlio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Túlio. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de novembro de 2010

Tema: Giz

Poema retirado de um quadro-negro

Se parte de mim vira poesia completa
A outra vira pó.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tema: Ginástica Rítmica

Ginástica rítmico-regressiva de um título sem texto sem tema sem trama centrado em um homem monótono.

Ou

De perto, não há monotonia

Ou

Muitas vezes a gente não entende o ritmo das coisas.



Segunda:
Já se tinha visto aquele rapaz andando por aquelas bandas, assistindo filmes, comendo cachorro quente, roubando motocicletas, chupando refrigerantes em canudos de duas cores, amando perdidamente uma cadela-animal, chorando copiosamente por uma cadela-mulher, ligando pros pais, rezando pros livros rasgados e jogados na privada de um banheiro público, transando com cheiros, limpando o azar, correndo de medo, morrendo de só, sozinho de tudo, sorrindo pra vida, beijando crianças, subindo em árvores, chutando maçãs, espremendo morangos morangos morangos morangos pra quê?.
Ele vendia dinheiro no mercado livre. Dez horas da manhã, diariamente anunciava NOTA DE UM REAL, R$ 2,00. Era dia 05 – datas são importantes – ele comprou uma centrífuga. Jogou todo o leite com toddy, esperando tomar marilyn monroe no café da manhã, que saiu na hora do almoço. Saiu pra trabalhar, espera aí – que trabalho? Demitiu-se ali na Tupis, antes mesmo de chegar ao prédio. Chegou em casa, tirando os tênis, correu para a televisão, abriu-a, pois queria pintar com aquelas cores ali de dentro. Pegou a tela, levou pro banheiro, de frente pro espelho encenou bruce wills. Ele era, era sim, o bruce wills, tomando um refrigerante, chupado por um canudo de duas cores.
Isso tudo na segunda.

Terça:
Alguém observava, era certo. Saiu no meio do filme, chorou pela cadela-animal no meio da rua morta – isso mesmo, rua morta; ligou pra cadela-mulher e confessou amar os pais perdidamente, rasgando a vida, sorrindo pra privada de um banheiro publico, sozinho de tudo, transando só, morrendo copiosamente nos livros, espremendo árvores, beijando maçãs, chupando morangos, limpando cheiros roubados, que azar azar azar azar azar az.
Ar, ele pediu um pouco de ar ao conseguir largar aquela rua, descer a Gonçalves Dias, chegar à Bias Forte, largar mão daquela praça.
Correu pra comprar pipoca – mas deixou o dinheiro à venda no mercado livre. De todo jeito, faltavam R$0,50. De grão em grão em grão em grão em grão em grão – um saco inteiro de pipoca.


Quarta:

Isso era quarta.

Ele não ligou pra vida, não comeu quase nada, roubou motocicletas de novo, espremeu, chupou, limpou, beijou, correu de crianças, limpou a privada, sorriu para o azar, transou com os pais, cadela-mulher e todos os livros, subiu só, rezou pelo medo, medo, medo, medo, medo, medo, medo, morreu só, sozinho de tudo, no banheiro publico.

domingo, 26 de setembro de 2010

Tema: Amarelo

- Cerveja, é claro! – pediu.
Os dois desataram uma conversa riquíssima sobre valores, saudades e futebol. Era muito cedo.
- Caro amigo, eu creio mesmo que por tão pouco nos vermos, nossa conversa é como carta que, de tão atrasada, chega envelhecida com aquela cor do tempo. A sensação, obviamente, é angustiante...
- Meu querido quase-irmão... Sinto saudades. Peguei recentemente aquele ônibus que pegávamos juntos para ir ao Horto, naquele bar que o Moreira descobriu e disse ser o melhor da cidade... lembra? Pois eu me lembro e me emociono quando, nas finais do Mineiro, posso colocar aquela camisa que usei naquela final do Brasileirão...
-... ando pegando muitos ônibus diferentes, vendo muita gente sem graça; tenho falado muito por falar, levado muito na cara. A preguiça se apoderou de mim. Tenho vivido muito no sofá, tenho vivido muito mais de boa tarde do que de bom dia e, definitivamente já não sei o que é boa noite. Apartamento é terrível, meu irmão. É uma fôrma dessas em que a gente põe água e espera virar gelo. Não fosse o calor que me deixa meio febril, meio hepático, talvez eu tivesse mesmo virado gelo...
-... tentei procurar companhia, busquei aqueles velhos problemas. Acho que não te contei, mas revi Carolina recentemente. Foi estranho que após tanto tempo ela me procurasse. Ela ainda continua loira, farta, voluptuosa e senti meu estômago se revirando naquelas duas horas em que fiquei esperando ela chegar ao bar. Conversamos por algumas horas, driblando as interrupções vindas do resto da mesa e ela se mostrou interessada em mim, encantada como nunca antes, proferindo elogios e (maldição) enaltecendo minha inteligência. Sabes como eu sou fraco no ego, não? Dei pra esbanjar. Ela elogiou minha sensibilidade. Incrementei o assunto com perguntas. E eis que ela vem me contar de um trabalho final de sua faculdade. Em suas explanações, a filha da mãe me solta um “no meu trabalho, eu vou seguir três vertigens”... Eu duvidei. Continuei o assunto, ela queria dizer "vertentes", tenho certeza... mas repetiu o erro. "Olha, que legal, é bom trabalhar essa vertigem também", ela disse quando eu dei um pitaco que condensava e explicitava essa minha sensibilidade e intelectualidade. Fiquei olhando para aquela boca, pensando com dentes cerrados... "vertigens"... "vertigens"... tentei imagina-la me chupando, calada, ou simplesmente sorrindo. Fiquei triste - já não gosto mais das bocas só por imaginá-las me chupando. É horrível quando você cria esse tipo de exigência: bocas com conteúdo o suficiente para que não exista esse ímpeto de preenchê-las com sabe-se-bem-o-que...
-... consegui muita coisa na vida, cara. Salário, apartamento, namorada, ex-namorada, garrafa de whisky, livro de auto-ajuda. Tudo o que um homem feito precisa. Sempre existem coisas a serem lembradas e você está aí para não me deixar mentir. Tenho muitas lembranças em sépia em processo de desbotamento. Falo muito com as mesmas pessoas, mas parece que falo sempre as mesmas coisas, de uma maneira tão cíclica e viciada, tão rasa...
-... eu já desconfiei mesmo, como costumávamos desconfiar em nossas tardes ociosas de casa vazia, que tudo isso é mesmo enganação ou criação minha. Os códigos que usamos para pedir o leite, para comprar o pão são tão desestimulantes. Eu sinto falta de mudar a ordem das coisas, de pichar o muro, de beijar um homem...
-... sinto falta de me especializar em trivialidades. Tentei ser enólogo, mas é profissional demais. Resolvi provar cachaça – quanto mais amarela, mais velha, mais curtida, mais amarga, melhor. Irônico, não?
-... no entanto, estou bem. Duas vezes por semana vem uma faxineira. Ela é crente...
-... meu maior inimigo é o tédio...
-... o trânsito anda caótico por aqui. Não consigo chegar em casa antes das seis...
-... a vida já bateu, mas hoje não bate mais tão forte assim...
-... meu calo me fez perder a sensibilidade no pé...
-... no coração...
-... portanto...
-... não me estendo mais...
-... o tempo urge...
-... o tempo passou, né?...
-... tomara que nos encontremos...
-... Com carinho...
-... atenciosamente...
-Garçom, a conta – já era tarde, não havia luz suficiente para as cartas. Era melhor ir embora cuidar da febre.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tema: Discos Voadores

Passei anos de minha vida tentando meditar e foi só neste ou naquele dia (se o tempo realmente for relativo) que cheguei mais próximo de tal façanha.
Tendo acordado de um cochilo que durou a tarde inteira, pensei em abrir a janela e saciar aquela curiosidade em saber que cor o céu teria exatamente às seis horas da tarde num dia quente de inverno, como este ou aquele de nossos tempos. Meu corpo não queria fazer grandes esforços e, com um mínimo de movimento possível, empurrei a janela ao lado da cama.
Era um anil fosco, quase roxo, quem sabe ainda, outra cor que só existe em outra língua. Pus os olhos fixos na casa ao lado, cujo nome é varanda - por metonímia.
Era tanto pássaro, tanto, tanto, que meu ouvido se confundiu – e esse momento foi a delícia de só ser. Abarquei outros sons, e caí novamente da corda bamba do não-pensar. Mas que se foda. E eu pensei sobre meus próprios pensamentos, tal qual metalinguagem, enquanto, em paralelo, me admirava o fato de ainda haver sons de crianças pela rua.
Às vezes acho que sou o cara mais novo do mundo. E isso quer dizer que eu tenho medo demais. Medo - medo mesmo - é aquele sinal de que falta algo e que, no final das contas, você pode estar desamparado ou morto. O medo é feito de, pelo menos, duas partes, apoiadas pela idéia de possibilidade. O medo é um triangulo invertido que começa na realidade e termina na imaginação.
Disse alguém lá do outro lado das águas, que navegar era preciso. Disse isso, mas o fez já algum tempo depois das Navegações e um tempo antes de irmos ao espaço. Sei que é tolice dizer que houve qualquer Pessoa sem medo, mas acho que o autor dessa frase só pôde ter dito algo tão perigoso assim, por ter estado num momento em que tudo era centrado demais – não havia mais nada além dos mares e algo além da Terra era muita pretensão.
Além da terra é pretensão demais.
Além da humanidade é pretensão demais. Penso que é preciso voltarmo-nos aos seres humanos para voltarmos a ser humanos – falo isso olhando pros céus, imaginando coisas sobre uma luz mais forte, que é Vênus; e eu sigo cismado com os signos de touro ao meu redor, com as pernas que passam e eu não posso tocar, com esse impulso carnal que é a arte aqui na boca do estômago, com a astrologia, que, diz-se por aí, vem dos céus também. E se não for Vênus e nem verdade?
É aí que surge o medo.
Chega um outro som aos meus ouvidos, desfazem-se o medo do medo e a inquietação borbulhante aqui dentro. Por ora.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tema: Massinha

(...)

13 de outubro

A vida é mesmo uma filha ingrata e mimada.
Um travesti me disse certa vez que a vida é uma doença sexualmente transmissível, crônica e mortal. Não o acho sábio, nem sequer engraçado ou original por essa frase. Mas essas palavras vivem se divertindo na minha cabeça, como uma piada sem graça que ficamos tentados a contar quando nos deparamos com pessoas sem graça. É incrível a quantidade de pessoas sem graça no mundo. Droga, essa piada me persegue.

Nesse meu ofício sujo, poucas vezes existe o luxo de certos sentimentos. Mas, dessa vez...
Pobre homem. Apesar do costume com cadáveres, vez ou outra, sinto alguma empatia por um. É o caso, estou comovido.
Ele morreu sorrindo. Tentou fazer um acordo, mas foi enganado. Pobre homem. Não se faz acordos assim em dias como os atuais. Não com esse bando de loucos à solta. Ele sorriu aliviado antes de ter sua barrigada completamente perfurada. Quanta confiança...

Como não podia deixar de ser, a noite é quente e eu me sinto um pouco exposto nessa camisa de mangas. Acho que são essas moscas. Malditas, a carne mal esfriou e elas já estão em cima.
Tenho de levar o corpo agora - a Agência exige. Mas tenho pena. Sei de sua história, investiguei tudo. Bom homem. Bom marido. O melhor empregado da editora. Bem relacionado. Muitos amigos. Estava sempre sorrindo. Passava confiança. Tinha postura, ajudava os amigos, a mãe e a esposa. Jamais incomodava a ninguém.

Esse é o problema das pessoas boas. Elas, normalmente, não ocupam espaço. Tornam-se moleiras, pedaços manipuláveis e de solidez pouco confiável. Cabem no molde da perfeição. Cabem em qualquer molde.

E se deformam.
Pobre homem. O mais doloroso é que todos morrem – mas, no caso das pessoas boas, parece injustiça. Não, a morte é a coisa mais justa do mundo – é o único ponto que iguala todos os homens.
-Pra morrer, basta estar vivo.
Eu só acelerei o processo. E matei um homem bom, igualando-o a todos esses vermes que enterrei durante esses anos.
Sinto enjôo. Deve ser fome. Esse cadáver vale o mês. Essa é minha vida – uma filha ingrata e mimada.
A piada não me sai da cabeça.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Tema: Lady Gaga

Romance Ruim
(À Fausto Silva, Mao Tse-Tung e Andy Warhol)

Essa história toda começou num daqueles dias improváveis, sabe? Pensa num dia improvável, sei lá... uma terça-feira. Acho que foi isso mesmo e só me faltava assobiar a música que tocava no rádio – música grudenta, um apelo meio minimalista usado pra fins comerciais, me lembrava um pouco as músicas da década passada nos clubs.
E bem no esquema historinha, eu assobiava, quando dois homens me seguraram pelo antebraço, quase me carregando. Contestei, claro, sem muito escândalo com medo de ser um assalto. Eles me ordenaram silêncio, falaram para eu confiar neles.
É um tanto quanto ridículo isso. A última coisa que eu faria se eu fosse um conspirador maluco que quer recrutar pessoas em segredo e inopinadamente, seria falar para elas algo como um “confie em mim”. Confiar é o caralho. Ora, vamos ao mundo real, não? Se dois homens te seguram pelo braço, muito claramente intencionando alguma coação qualquer; qual é! Eu confio no diabo que não é humano, mas em vocês não, camaradas... vocês não.
-Entra no carro.
-Pra onde? O que tá acontecen...
-Confie em nós.
Bem dita a era da informática que reestruturou a comunicação escrita. Nos e-mails, bate-papos em geral, existem aqueles tais emoticons. E eles atendem muito perfeitamente a algumas situações como essa. Na hora que a figura me veio de novo com essa de “confiar” enquanto eu entrava no carro, eu reagi com um olhar que só um emoticon consegue exprimir graficamente. É algo como um: ¬¬
Meus braços doíam no carro apertado. Imagino que você, leitor, tenha uma cena de dois brutamontes vestidos de preto e óculos escuros me rodeando. O espírito é esse mesmo. Mas não eram assim, eram seres humanos muito normais - um deles não me era nem estranho, e ambos poderiam andar na rua sem a menor suspeita. Não eram fortes, talvez até mais franzinos que eu. Mas eram dois, e por maior que eu fosse, é como diz o ditado...
-Boa tarde, sr .:
- Como diabos você sabe meu nome? – me desesperei com a certeza de um seqüestro relâmpago.
Mas descobri que não era. O rapaz que eu, de alguma forma, identifiquei como um distante conhecido era um sujeito que me puxou de conversa no ponto de ônibus numa outra terça-feira, porque eu estava lendo um simples e maldito livro de poesias. E ele “que livro é esse?” e eu “Manuel Bandeira, conhece?” “sim... é... hum...você escreve?” eu “sim, já até tentei publicar uns livros de artigos acadêmicos” “olha, eu sou professor de literatura, escrevo também”... Lembro que fora uma conversa legal, produtiva, que até me fizera perder um ônibus. No final, nos apresentamos, deixei meu cartão e a partir daí, pelo que soube no carro, eu fui muito bem rastreado usando aquelas informações. Até aquele momento infeliz.
- A idéia é a seguinte sr.:, nós somos um grupo. Um grupo de escritores, como você. Na verdade nós somos todos os escritores do mundo...
-Nós? O motorista também?
- O motorista também.
-ah... e só?
- Faça-me o favor, sim? – ele usou aquele mesmo rosto do emoticon – Sr.:, nós somos um grupo enorme que se organizou em prol de um bem maior: a inteligência humana desperdiçada na falta de valor às obras primas. Os excessos da internet, o mau uso e desuso das obras que são de nosso direito, o capitalismo editorial, a pirataria – tudo aquilo que desvaloriza a nossa arte...
-Espera aí, como se já não bastasse toda a crise que está acontecendo, vocês ainda estão botando lenha na fogueira e dificultando as coisas com discussão e ...não é discussão?!?... você está querendo me dizer o que? Foram vocês?!?!
Caros leitores, eu bem gostaria de supor o conhecimento prévio de vocês acerca de a que crise eu me refiro. Porém, tendo em vista a excessiva atualidade da coisa, temo que, aos olhos da historiografia, da sociologia, ou melhor, da memória social, o fato citado, se perca algum dia por motivo de força maior. Portanto, esclareço.
Em idos da transição das primeiras décadas do século, houve um momento de crise no setor editorial – não falo da questão da pirataria ou dos direitos autorais, mas algo mais palpável, quase terrorista – empresas relacionadas a esse mercado faliram, devido a ações criminosas como vandalismos, hackeamento, roubos – tudo isso em instituições como as que fabricavam materiais como tinta para cartuchos de impressoras, ou as próprias gráficas, algumas livrarias, lojas de informática... Por conta disso, houve problemas em publicações, a mídia periódica entrou em crise de recursos e, por algumas semanas não houve nenhuma impressão de livro, e mais: sumiram-se as novidades. Ninguém publicava mais nada.
E tudo se explicava ali, naquele momento da descoberta em que atravessávamos a grossa porta de um galpão para uma escada enorme que dava num subsolo, no qual fora construída uma sala de proporções que, se eu fosse descrever, precisaria comparar e aí pareceria mentira. Era verdade: todos os escritores do mundo estavam ali; muitos foram seqüestrados, outros coagidos, mas muitos simplesmente integravam aquela organização diabólica.
- Pedro, por favor, com licença – nós passávamos por um grupo de quatro rapazes e uma moça logo na entrada – crianças, esse é o Sr.:... agora, Matheus, contacte o pessoal. Podemos começar a assembléia essa noite: o ultimo escritor chegou.
Essa assembléia (e eu não sei por que decidiram esse nome, já que estava mais para um comunicado sobre um determinado plano de ação) tinha como pauta uma das últimas e principais ações do grupo.
Pois bem, além do ataque a editoração e os boicotes a literatura vendável, o grupo resolveu reagir através de alguns ataques àquelas formas de expressão que eram consideradas inimigas das Belas Letras.
-... e então, na última semana, boicotamos também a industria cinematográfica. Claro que foi muito mais difícil e obtivemos muito menos êxito. Mas a proposta, a princípio é o susto. O que queremos é destroçar toda a mitologia que essa praga de século nos impôs. Nesse exato momento, em Nova Jersey, bombeiros estão limpando a cinza de mais de 3.907.000.000 exemplares de diversas revistas em quadrinhos queimadas numa ação conjunta. A indústria fonográfica, por si só, já está em crise, portanto não nos ocupamos com ela exatamente: mas com a iconologia que ela criou. Queremos acabar com essa mitificação da imagem de pessoas que se passam por artistas, através da música.
Essa mesma última frase fora repetida posteriormente por um escritor famoso no momento da introdução da assembléia. Antes, quando o rapaz do ponto de ônibus ainda me explicava as ações do grupo, eu perguntei sobre como eles se organizaram.
- Bem, a gênese dessa iniciativa é um mistério – mas através de cartas, parece que a maioria ficou sabendo. Alguns ignoraram, outros foram descobertos, como você. O processo foi longo. Juntamo-nos e os problemas estruturais foram resolvidos com o “tempo”- ele fez o gesto para essas aspas, seguido daquele roçar de dedos que simboliza dinheiro - afinal, a mulher mais rica do mundo é aquela escritora infanto-juvenil, certo?
- Não é a Oprah? – perguntei.
-Não!- me respondeu meio bravo um daqueles rapazes, cujo nome era, ou Túlio ou Luiz...
Pois bem, adiantemos para assembléia, aonde todo mundo (do mundo todo), com um fone de ouvido para tradução, escutava aquela frase repetida a que eu me referi.
- Queremos acabar com essa mitificação da imagem de pessoas que se passam por artistas, através da musica. – era o tal escritor famoso cujo nome não cito, por ordem ética – A música só é exemplo, pois, atualmente, ela se envolve nesse hibridismo entre essas artes visuais; hibridismo que tem empobrecido, e muito, a cultura de massa, mastigando as coisas e as entregando vomitadas. Após anos tentando nos enfiar nesse meio, mudá-lo, tomar parte, ter cadeira cativa no que hoje se chama de cultura (mas que não passa de uma imposição hegemônica, devo ressaltar); percebemos que a literatura perdeu vez. O que nos resta é uma atitude extrema: atacaremos uma dessas imagens, para chamarmos a atenção para nós.
(ovações)
- Por muito tempo procuramos ícones dessa “cultura pop” – ele também fez aquelas aspas irritantes com os dedos - e inclusive, recentemente, perdemos um daqueles que era o nosso melhor bode expiatório, justamente por termos exagerado na dose...
A moça que estava do meu lado, menina, pra ressaltar sua aparência jovem, chamava-se, pra não me enganar muito, Catarina, ou algo assim bem brando. Perguntei-a se ele estava falando de quem eu estava pensando.
- Aquele cantor? É... – eu cochichava – o tal do Mich... – fiz gestos que questionavam se também tinha a ver com o que ocorrera ao tal homem.
Ela, mais atenta ao discurso, só acenou com a cabeça o sim.
“Monstros”, pensei.
-E agora, temos a nossa intenção. Chantagear a cultura, com aquilo que está em seu auge, com um sacrifício mais saudável. Seqüestraremos aquela que representa um excesso de cultura pop, um excesso de tudo aquilo que nos abomina. A chamada Lady Gaga!
Fiquei um tanto perplexo. Palmas muito enérgicas, mas ainda assim, educadas, encheram o local. Percebi que percebiam meu assombro.
“Em Tróia, como os troianos”, pensei e comecei a bater palmas.

(continua...)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Tema: Janela

Com licença, Carlos. (Mas eu não confiaria em anjos se fosse você)


A doce calçada que se estende e beira toda a rua,
que percorre toda a cidade,
que se transforma em cidade enquanto houver rua em seu entorno.

Cidade que se entorna dos prédios e cascateia pessoas tristes.
Prédios de fratura exposta, de veias à mostra derramando gente,
Engolindo gente, recebendo luz.
Luz que escapa do olhar. É três por cinco, grita o centro da cidade.
Gritam os olhares distantes e desavisados. Com pressa. E rápido demais, as janelas olham.

Existe um vendedor de mapas lá embaixo.
Em meio ao centro, ao tremor e aos computadores.
Existe um homem vendendo mapa nas ruas.
Existe um mapa na janela fechada do meu computador.
Existem pessoas. E desencontros. E desencontrados.

Existem cores – Graças a deus existem cores ainda- ora, vejam.
Cores constantes. Algum poeta se infiltrou no departamento de trânsito.
Alguém coloriu as ruas constantes com sinais.

Existe o tempo.
Algum apressado pregou um relógio no prédio.
Alguém ritmou as ruas com instantes.


Existe um sino –
preguiçoso como um relógio aposentado, ele ainda existe.
O rádio toca ave-maria. Olha, Carlos, era um anjo também às seis horas.

E por falar em você, Carlos, daqui não vejo pernas. Daqui só as cabeças andam rápido demais. As cabeças de seis horas – sempre olhando pra cima, sempre olhando pra baixo.

E por falar em seis horas, Carlos, a tarde talvez fosse mesmo azul.
Azulejada, pra não esquecer de onde viemos. Pra não esquecer que o sino toca às seis.

E éramos sim, uma cidadezinha qualquer.
Qualquer cidadezinha planejada.
Qualquer calçamento mal-feito.
Qualquer pobreza e bem-feito.
Qualquer vida besta, meu deus do céu.

Mas tudo foi rápido. E rápido demais. Rápido demais as janelas olham – se é que olham - diariamente.
Quer dizer, as janelas mal olham – estão perto dos céus sem precisarem ser vitrais de igrejas. E o que de interessante pode haver lá embaixo? Ou ao lado?

Como os olhos e alma, as construções e janelas: a luz entra e sai rápido demais.
Nos falamos por antenas – que levam as coisas ao espaço pra depois trazer pra rua ao lado. É tudo tão alto, tão vertiginoso, tão sem asas nas costas...

Que são seis horas, aqui e no prédio ao lado e o sino já vai bater.
Eu não pulei ainda.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Tema: Umbigo

O filho que tive, tive e perdi. Guardei-o com tanto medo no meu quarto, em minha cama, em meus seios, no meu ventre.
Eu o trouxe ao mundo, levei-o a escola, e de volta ao hospital quando adoeceu e, além de tudo, já busquei em festa, chorei na madrugada, padeci no paraíso, como diz o outro.
A cama sempre tava arrumada, a comida eu que fazia, ou quando pude pagar uma empregada, era só o que ele gostava.
Levei pra comprar merendeira, roupa, boné, tênis novo. Dei uma fita cassete de rock. Ele perdeu tudo – na escola, na rua, na casa da namorada...
Eu já passei tanta pomada em peito cheio, em assadura, em espinha. E agüentei tanta noite em branco por conta de leite, ou de doença, ou de festa até tarde.
Eu já mandei não gritar comigo, se impôr pros coleguinhas, obedecer o pai, respeitar os mais velhos, falar o que tava sentindo, pensar antes de falar.
Já ajudei com dor de joelho ralado, de cotovelo, de estômago, de barriga, de cabeça.
Nunca levantei a mão, mas segurava firme sempre que ia atravessar a rua, pra que ele não se perdesse de mim, pra que um carro não o levasse, pra que ele não se esquecesse de continuar e seguisse em frente, adiante, até o outro lado.
Mas o outro lado o levou.
E minhas mãos ficaram vazias e sem poder levantar, assim como meu corpo. A dor foi de uma contusão que nem eu mesma sei onde, mas que parece tortura. A voz sumiu de tanta vontade de gritar. E não tem pomada, nem oito horas de sono pra isso. A cama não fica mais bagunçada e sobra comida- mas eu continuo arrumando os lençóis e servindo o prato. E já me levaram ele – pra me evitar o trabalho de ter de levá-lo a algum lugar, levaram o menino daqui. E eu levei-o ao hospital uma ultima vez.
O filho que tive, tive e perdi. Guardei-o com tanto medo no meu quarto, em minha cama, em meus seios, no meu ventre, que não soube me desgarrar, não soube parir de novo, nem cortar o elo que nos une, e que médico nenhum conseguiu. Mas a vida...

domingo, 4 de julho de 2010

Tema: Vaidade

Discurso

Oh sim, meus amigos, eu tentei salvar o mundo essa semana. Três vezes, por aí.
Estive em um estado de euforia e, justamente por isso, sei que nada dura, nada, nada, nada e por vez da natureza, as coisas tendem a cair lá do alto.
Ora, eu fui o grande solucionador, reinventor de verdades, criador exemplar, grande conselheiro; um completo neurótico. Caí na vida, em busca de história, e as criei, com ou sem vida, mas criei. Nesse ultimo mês tive a oportunidade de me sentir completamente apaixonado pela capacidade que os seres humanos têm de simplesmente serem humanos e, justamente por isso, me julguei um algo a mais.
Só que convém lembrar, a cada domingo, que o céu é maior e a gravidade está aí, a nos doer as costas.
E é importantíssimo assumir a insanidade – assuma o caos que há dentro de ti ou algo assim. E frustre-se, esse é o primeiro passo do aperfeiçoamento. Foi assim que eu, tal qual Deus, fiz tudo em uma semana – tudo. Só deixei definições como a do amor pra depois, pra lá, em banho maria – como o próprio Deus fez.
E isso é o grande problema quando você coloca à plenos pulmões que o/no princípio era/ é o verbo.
E eu fui tirando do fogo baixo e nada estava pronto. E isso é enlouquecedor. Tanto o é que a gente começa (e isso, depois de tudo, tudo que eu descobri é muito doloroso) a recorrer ao outro com a credibilidade carente de uma criança que depende da moral alheia. E a partir daí vem o colapso, o medo, o questionamento.
E a vontade que dá é de acabar logo com essa palhaçada. E é fácil tentar : 80km/h em todos os sinais de uma avenida em olhos fechados e se perguntando com a barriga gelada se era pra eu continuar aqui mesmo e até onde isso teria impacto e como seria o meu próprio luto – e no mesmo dia me disseram que viver algo pensando no fim é doentio e medíocre. Pois eu dei sorte, fechei os olhos de pura manha, até porque os sinais todos abriam quando eu estava a 30 metros mais ou menos. E quando foi diferente, quando eu pude apostar na sorte, não dei conta, diminui a marcha e já passava pela luz vermelha a menos de 30 por hora. É, eu ainda conservo um amor a vida muito grande, ou, pelo menos, uma antipatia à covardia, ou, pelo menos, um asco à tendências suicidas ou um não sei o que. Mas eu queria saber o que seria do dia de amanhã, dos olhares de amanhã.
O que acontece com os heróis caídos – principalmente quando eles caem antes do levante? O que há de haver com essa maldita seleção brasileira? E com os escritos bem formulados? E com as próprias pernas as quais todo ser humano, a principio, tem direito?
O que há de haver com as perguntas, se eu cismei de me ver com todas as respostas, certo?
E antes um discurso do que os velhos contos, porque neles, eu podia e quase devia criar, mentir. E quer coisa mais vaidosa do que a sinceridade?
Ah, sim, meus amigos... perdoem-me, mas tentei salvar o mundo mais uma vez.

sábado, 26 de junho de 2010

Tema: Frango

Por falta de poesia ou coisa melhor...

-Mas é carne, não é?
-Não... é como se não fosse... não tem sistema nervoso.
-Como não?
-É, ora... peixe não tem sistema nervoso, não sente dor...
-Afemaría.. essa agora. Não to falando do peixe, ô... tô falando do fran...
-psst! Não vamos falar essa palavra, por favor...
- Por quê?
-Olha, vamos evitar o óbvio, só isso. Esse tipo de coisa tem que ficar subentendido...
-E aqui vamos nós, com esse papinho misterioso furado...
-Enfim...
-É, então você come ou não come essas merdas...
-Ai, olha o respeito. Comer merda é a mã..
-...
-Ai, desculpa!
-hã?
-É que eu vivo dando essas bolas foras; ai meu deus... e eu não falo nada desde que sua mãe morreu... que jeito de tocar no assunto...
-Êpa, minha mãe não morreu, você enlouqueceu?
-Eu sei, eu sei...
-Pára com isso! Tem ninguém morto lá em casa não... pessoal tá com a saúde de ferro, nem que eu queira aquele povo morre
-É, é verdade... não sei, não sei o que me deu..enfim...
-É.
-Tá legal, vão pedir a comida? Cê quer o que?
- Sei lá... pode ser esse galeto aqui...
-Isso, usa essa palavra, é melhor mesmo... Eu fico com a salada, tá moço?
-Quanto tempo?
-Quanto tempo o quê?
-Você não sai com alguém?
-Isso é pergunta de se fazer na frente do garçom?!?! Ai, que vergonha...
-Curiosidade...
-Pára, né?
-...
-Enfim...
-Tudo bem, melhor não saber. Tenho perguntas melhores.
-“sua estupidez não lhe deixa ver...”
-Gal?
-Roberto. Adoro essa, lembra meu pai.
-ah...
-enfim...
-é. Enfim.
-Que foi?
-Nada,
-Duvido.
-De quê?
-Nada.
-Duvida de nada?
-Não duvido de nada...
-Cê não acha meio brega, não?
-O que?
-A dúvida....
-como assim...?
-Tô brincando, o Roberto.
-Claro que não!
-Eu acho...
-Lembra meu pai...
-Não lembra o meu.
-Que musica lembra seu pai?
-Ah, chorinho... Samba...MPB... Ele adora a Elis.
-E sua mãe? De que ela gostava?
-Ela gosta dos Stones, dá pra acreditar? Lá em casa é assim.
-...
-...
-... então... você acha que me ama?
- O que???
-Eu acho que não.
-Pra que a pergunta...?
-Pra você responder...
-Olha, tirando o cheiro que ficou no meu casaco e umas lembranças ou uns pensamentos de te encontrar logo ali na esquina sem querer... Eu também não sei...
-Nossa, que romântico, hein?
-Eu não sei responder.
-Era brincadeira.
-Era?
-Não.
-Não?
-É.
-É o que?
-Brincadeira.
-É ou não é?
-Você nunca ouviu isso?
-Ouviu o que? Uma brincadeira? Ou que alguém me ama?
-Eu sei que quando sua mãe era viva ela te falava “eu te amo”... tô perguntando é se você já ouviu alguma brincadeira assim saindo de mim.
-Minha mãe não morreu, porra!
-Peraí, ce ta indo embora?
-...
-Não vai não! Caralho, eu to só conversando... calma lá. Ai, assim não. Não vai embora assim...
-Não se faz as coisas assim, desse jeito, tá legal?
-Tudo bem, só espera chegar o prato...
-Isso tá ficando desgastante...
-Eu tô morrendo de fome...
-Eu não sei o que dói mais...
- o galeto! Chegou...
-O que você queria com isso? Eu não suporto essa coisa toda...
-Dá um tantinho do seu arroz? Não to agüentando de fome...
-Eu amo sim.
-enfim...
-Toma o arroz.
-Tá boa, a carne?
-Você disse que não era carne...
-É sim. Peixe que não é. Chegou, a salada...
-é... desisto...
- De quê?
-Não lembro.
-Sabe o que deve ser ruim?
-O quê?
-Ter asas e não voar...
-É, é mais ou menos como que olhar pra você.
-Concentra no que você ta comendo, aí, vai...
-Você que começou.
-Não, foi você quem perguntou primeiro...
-Eu???
-E por último também.
-O que eu perguntei?
-Aí, de novo.
-Foi você quem veio me perguntar se eu te amava.
-Foi você quem veio perguntar se era carne ou não.
-Que é que tem a ver?
-Carne com amor? Tudo!
-Ah, então tá... é amor ou carne?
-Que pergunta maluca... você anda estranho desde que sua mãe mo...
-Minha mãe não morreu! Merda.
-Tá legal. Ela não morreu, peixe é carne e você me ama. Temos todas sentenças montadas. Mas e frango?
- Ah, vá à merda....
-...
- Eu não amo frango, mas é carne e sim, tá morto. E eu tô comendo.
-Mas não é galeto?
- Frango não era uma palavra proibida?
-Você conseguiu não usar o óbvio?
-Como assim?
-Eu queria evitar o óbvio. Mas você não conseguiu. Então, pode falar frango.
-Hum...
-Vamos começar de novo: Sua mãe não morreu, peixe é carne, você me ama...
-Roberto Carlos é brega...
-Roberto não é brega. Seu pai deve gostar de “As curvas da estrada de santos”... Se for brega eu mato tua mãe.
-Mata não. Deixa isso pra lá.
-Sua mãe não morreu, peixe é carne, você me ama, Roberto Carlos não é brega e você tá comendo frango.
-Mas acabou.
-O que?
-O amor.
-...
-...
-...
-Amigo, traz outro frango?

Garçom: - É galeto, senhor.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Tema: Toalha

Santo Sudário

E numa tarde de tanto calor, aquele sobe-ladeira danado e um sofrimento nesse sol de rachar que dá no fim de março... Maldito outono que não chega...
E as romeiras todas ali, subindo rua de pedra, como que respondendo ao sino; e o vestido ia encurtando nas mangas, as bochechas se avermelhando e aquele suor que, com sorte, os olhares de doze anos podiam flagrar escorrendo nas coxas à mostra de uma ou outra balzaquiana que puxasse a saia ao parar pra descansar do calor.
Mariana se incomodava menos com o sol do que maioria dos rostos corados ali na procissão. Ela se demorava mais em seu caminhar, estava distraída com alguma coisa desde que acordara. Alguma coisa estranha ali dentro. Diferente, não era cólica, até porque o sangue descera já fazia uma semana ou menos. Mas ai, não era o calor do sol que a fazia querer puxar as mangas, levantar um pouco a barra do vestido... não era, ai meu deus, não era...
Era domingo de páscoa e ao longe, naquele mar de montes, uma carga de nuvens pretas ameaçava acabar com a tirania daquela tarde. Lá embaixo do morro, de onde a procissão saiu, vinha a família dos pretos. Tão ameaçadores quanto as nuvens de lá do leste – diziam que eram do candomblé e disfarçavam seu paganismo participando das festividades da boa gente católica – falo dos pretos, não das nuvens.
E o desejo de que chovesse era grande. Jesus mesmo, ali com uma cruz de madeira barata, leve, já não se agüentava mais e praguejava em silencio, quase rezando pra que São Pedro tomasse lugar nessa palhaçada toda.
Os crentes faziam questão de cortar a procissão, passar em horizontal – eram dois: mãe e filho; 40 e 16 anos. Ao cruzarem com Jesus, cumprimentou-o a mãe, em respeito ao pai do messias, dono da venda. Ao encontrarem os pretos, viraram a cara, por conta de uma briga que o rapaz de dezesseis anos teve com o mais velho da outra família na escola. Preto de merda, esse Afonso... crente filha da puta. E a puta, Maria Madalena, que já até fora crente, mas largara a idéia por braveza do falecido pai, olhou torto pro menino branco- Alexandre que ele chamava - meio que prevendo alguma coisa ali.
Mariana também viu, sem prever coisa nenhuma. A barriga doía uma ansiedadezinha e o calor deixava a mão mais fria. Aliás, eu disse que ela viu, mas, na verdade, ela olhou e olhou firme. Depois do preto, tudo que prendeu o olhar do Alexandre foi a menina. A menina insossa, magrinha de tudo, que devia era de estar passando mal, com aquela suadeira fria, aquela coceira irremediável em algum lugar intocável, também não desgrudava o olho do branquinho.
E já chegando a procissão na igreja, um pretume, como que num fronte de batalha, veio chamando a atenção para si e levantando algum receio da hora de voltar – falo das nuvens, não dos pretos. E nessa deixa, Mariana diz “mãe, to passando é mal. Dá a chave de casa, dá? tô cansada e não quero pegar chuva. Fica com a sombrinha aí ”. Calada a mãe entregou o molho e seguiu entrando junto com os fiéis na igreja que passavam a mão na cruz e faziam o pelo-sinal.
Maria Madalena, que agora chamava Débora de novo, olhou pra menina indo ali na direção de casa, enquanto ela própria tomava o rumo que lhe convinha - seguiu os pretos, que não entraram no templo. Gostava deles, os tratava bem e fora sempre muito bem comida em segredo por um dos rapazes.
Seguiu-os até onde iam, perto da casa de Mariana, que era vizinha do tal Alexandre. Era pra buscar um pano na casa d’uma velha.
Dez minutos antes de a velha entregar esse pano, Mariana chegava em casa. Vinte minutos antes de Mariana chegar em casa, uma discussão se iniciara nos vizinhos. “...que igual seu pai você não fica, seu excomungado. Pai que você tem é Deus, e só. E esses vícios vamos dar jeito de tratar. Ah, então é? Você vai sair daqui? É igual o pai mesmo...” Eram gritos que da rua se ouviria, se ali estivesse alguém. Pois que, logo depois de Abel sair batendo porta pra o meio da rua e a mãe ir chorar rezando no quarto trancado, veio Alexandre, mais menino que nunca, não acreditando em deus, chorar no passeio a raiva do irmão descrente.
Ali que Mariana o encontrou. E a fisgada fria aumentou na barriga, as coxas se roçaram e, com a intimidade de quem nunca sequer trocara uma palavra com o vizinho, ela assentou ao lado dele, passou a mão nos cabelos lisos do rapaz e disse: “por que é que tá chorando aqui, na porta da minha casa?”. Ele ficou em silêncio e, chorando mais forte, deitou no colo dela. Ela o abraçou, beijou seu cocuruto, levantou-o pelo braço, puxou-o como quem puxa um bêbado, abriu a porta de sua casa, tomou consciência de que aquelas fisgadas já se tornavam mais prazerosas, voltou-se pro rapaz e o abraçou com a força de uma mãe que abraça o filho retornando da guerra. Sentiu, portanto, as lágrimas quentes escorrendo pela sua clavícula, a boca do rapaz encostando em seu peito e molhando o vestido, os cabelos lisos e loiros que roçavam em seu pescoço e decote; e ela passava as mãos naquela seda, consolando-o e empurrando-o mais pra baixo e ele já ousava abraçá-la pela cintura, e escorria a mão com desajeito pela barriga, mexendo excessivamente o tecido do vestido em várias tentativas que, enfim, deram certo, porque ela já não agüentava mais aquela demora e decidira guiar a mão do rapaz. Ele a apertava desajeitadamente, com uma força desnecessária. Caíram no sofá, graças às contorções de Mariana. E ela parou.
Foi ao banheiro e começou a querer chorar a confissão do domingo que vem. Ele a seguiu, já sem a roupa, catando-a por trás. O choro cessou. Ela ficou nua e isso era muito melhor naquele calor. Ela apanhou a toalha, por supôr que faria sujeira. Foram pro quarto e, em cinco minutos, o sangue desceu e ele, gozado e arrependido, já não agüentava mais nada.
Chorando irracionalmente, o garoto pôs roupa, passou na cozinha e saiu correndo atrás do irmão - queria matar aquele profano infeliz, contagioso.
Os pretos o viram sair da casa da garota e não puderam perdoar. “Olha quem andou provando a fruta...” – Eles voltavam com um jogo de toalha bordada da casa da velha; Maria Madalena ia com eles e não riu da piada, pra não atirar a primeira pedra. Afonso, o preto que brigara com o menino na escola, riu mais alto – não tão alto quanto o grito de dor da faca que o atravessou logo depois. AU, FILHO DUMA PUTA. E foi outra facada, dessa vez, no pescoço. FALA AGORA, CRIOULO.
Ah, mas o menino apanhou, apanhou de desmaiar, de ninguém acudir. Apanhou o que queria ter batido no irmão. Mas apanhou, viu.
E Afonso morto, acolhido por Maria Madalena, que lhe devia uns carinhos, acolhido pela toalha da velha, suja de um sangue diferente daquele que sujava a toalha de Mariana num quarto na mesma rua.
Toalhas inúteis. Inúteis pra secar as lágrimas daquela que se sentia indigna; e o suor do pessoal morro acima, na igreja fedendo a fim de tarde; inútil até pra acolher aquela sangria desatada e, ao mesmo tempo, o choro de luto, e ao mesmo tempo o choro da mãe no quarto, indignada pelo filho que puxara o pai e pelo filho, que ela ainda nem sabia, mas morreu ali na rua mesmo, depois de matar um preto.
Toalhas inúteis pra secar as lágrimas daquele domingo de páscoa, mas que absorviam o material viscoso que traz pra gente esse incômodo chamado vida.
E a chuva que ameaçava a procissão caiu.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Tema: Mulher

Experimentação pessoal sobre o medo de ser mulher.

Eram dois – um a segurava por trás, agarrando os seus braços e o outro fazia sua lambança. Os movimentos eram bruscos, um dos braços, segurado com muita força, já estava dormente e as surras doíam menos do que suas seqüelas posteriores.
Seqüelas que doeram em momentos muito específicos – como no beijo do pai que ardeu, e muito, a face de veias arrebentadas na semana seguinte àquele dia.
As surras não foram o pior. Doeram muito, mas muito, as coisas ditas ao ouvido. A saliva que ficava e escorria quando a boca desencostava da orelha, quase carregava em si as próprias palavras proferidas, os adjetivos sujos, perversos, traumatizantes.
O único trauma que ela havia carregado até então, fora o medo da rua na qual, aos oito anos, viu um menino sendo atropelado... Ela tinha medo das ruas, das grandes avenidas movimentadas, que ofereciam o perigo da pressa. Mas isso se supera, se supera pela necessidade do ônibus do dia-dia, se supera, indo pelas ruelas de bairros mais ermos. E esses bairros mais ermos, aonde os carros são poucos, a experiência veio contar, oito anos depois da cena do atropelamento, que são muito perigosos.
No vazio de uma área residencial, sem grandes avenidas e de casas fechadas e surdas à rua, oito anos depois de chorar pelo menino estirado no chão, ela chorava pela dor de puxões de cabelos e ordens violentas dentro de um carro fedido, que não a atropelara, mas a impelira pra dentro de si aos pontapés, palavrões e ameaças.
Um jeito com o qual ela só se acostumara em filmes. O sangue é mais sólido fora da tela e a própria dor é menos teatral – não se aceita a dor como um ator coadjuvante que leva um tiro e não reage. Até o ultimo instante, o que se pensa é na fuga e na preservação - nem que seja a preservação de um último pedaço da própria carne.
Até o momento em que, por sorte ou azar, acontece de o pesadelo acabar – como aconteceu de alguém passar de carro pela rua ao lado e acontecer de esse alguém ser um policial em uma viatura fiscalizando e procurando saber se havia ali algum casal se divertindo em local inapropriado. E aí, aconteceu de eles ouvirem a sirene e preferirem levá-la e, para evitar qualquer problema, a matariam e a jogariam em qualquer lugar. Mas também aconteceu de a pressa e o medo desviarem a atenção do motorista que ignorou a sinalização e bateu em um outro carro. E o carro ficou imobilizado. E começou uma violenta discussão. E um táxi passou. E no desespero, ela o parou e entrou. E, desorientados, eles não fizeram nada. E eles, afinal, não tinham armas, ela pensou, e eram menos ameaçadores do que ela permitiu. E chorou. E o motorista do táxi não pôde evitar perguntar o que acontecera, e entender o porquê da batida, o que ela tinha a ver com aquilo, e muito sem graça questionou se ela estava machucada e comentou o fato de suas roupas estarem rasgadas e ofereceu leva-la a um hospital. E ela, “casa, por favor”. Mas ele não. E ela gritava, esperneava de medo de aparecer assim em público. Ela fora estuprada, moço. “Estuprada! Eu não quero ir a lugar nenhum, eu quero minha casa, minha morte, meus pais, a polícia, deus ou quem quer que possa me esconder. Mas hospital não”.
No hospital, ela contaria coisas para pessoas que não poderiam saber. E que teriam dó e só dó... nenhuma arma pra acabar com quem fizera isso, nenhum remédio pra voltar no tempo e faze-la passar por outra rua; passar por uma avenida, quem sabe, e ser atropelada mesmo, pra, aí sim, ir pra o hospital com dignidade.
E depois sairia do hospital com dignidade. E viveria a vida com a dignidade de quem pode até rir dos próprios acidentes. A dignidade de poder passar pelas ruas escuras correndo um inocente risco de quem tem medo do desconhecido. Mas ela já conhecera o perigo e o perigo a usou e a tomou pra si, punindo-a. Punindo-a por andar por onde quisesse, punindo-a por usar roupas curtas demais, punindo-a por ter nascido mulher e ter tido a audácia de achar que isso não tem conseqüências.
E ora, porque ela fora punida e essas meninas não?, pensou, já aos 23 anos, quando fora pela primeira vez a uma festa de faculdade. Pois era constante o pensamento de sair distribuindo calças para as meninas por aí e dizendo: - cubram-se, não dêem chance, sejam cuidadosas, suas prepotentes... E é claro que é impossível permanecer em uma festa aonde garotas desfilavam suas pernas para homens de todas as idades e tipos que as olhavam somente como uma oportunidade. Ainda mais impossível foi suportar ouvir o comentário na fila do banheiro “meu deus, eu preciso comer alguém hoje”. E o olhar de quem dizia isso estava desfocado, como o de algum bêbado que responde muito mais com instintos perversos do que qualquer outra coisa. E esse olhar lhe trouxe um arrepio muito forte, como de alguém que, da esquina, tem a chance de ver a iminência do acidente. Ou como alguém que vê um filme terrivelmente previsível – o mesmo olhar estava estampado na cara do motorista de um carro que a abordou para perguntar como se chegava à rua tal, sete anos atrás. Esse olhar de quem lê somente o que lhe interessa... ai, eu quero ir embora. E ligou para sua mãe buscá-la na festa.
O pai, aliás, ficou muitos anos sem receber uma ligação dela. É dele que ela sentiu mais vergonha... do primeiro homem que ela amou, e que confiava em sua inocência e que por tanto confiar, fez a pergunta reveladora. Ele, ao ver a filha chegando com a blusa rasgada, os seios à mostra sangrando, o rosto variando em tons de vermelho; vociferou com o taxista querendo saber o que houvera com ela. E depois, chorando um choro que lembrava mais a raiva do que a compaixão, abraçou a filha perguntando “por que”.
Por quê? Foi essa pergunta que a fez perceber que era culpa dela. E que ela dera motivos para aquilo acontecer. E que inocência não tem nada a ver com burrice e que por causa desta, aquela agora se perdera de vez.
E a culpa é algo que todo mundo carrega, mas só os que têm o azar de levá-la em cargas maiores que se incomodam. Pois essa culpa pesou nas costas feridas com o canivete que cortou todo o seu corpo das costas aos seios, para puro divertimento dos rapazes que a usaram. A culpa foi como que a percepção de que aquele corpo não era de direito dela, pois afinal, ela permitira que outros o usassem. E, logo aos dezesseis anos, ela, que namorava há uns meses, percebeu que não queria ser usada mais, pois não era proprietária de si mesma.
E o corpo, que já não era dela, era um peso, era a própria culpa que nos primeiros meses, ardia onde o canivete passara, aonde a mão esmurrara, na vagina que fora inteiramente ferida por unhas, dedos e uma penetração extremamente desajeitada. E, meu deus, eles se apropriaram tanto da intimidade da moça, que chegou ao ponto de abstração, no qual só o corpo respondia e, ali, naquele carro ela chegara a tremer por uns segundos pela sensibilidade ainda aguçada de um pênis dentro dela. Ela sentiu dois ou pouco mais segundos de prazer e isso era inconcebível. E lembrar disso, dois anos depois, fez com que ela sentisse, novamente, vontade de se matar.
E a primeira vez em que essa vontade surgiu, foi na visita de seu namorado atônito, que chorava o tempo todo de raiva, dó, impotência. E a abraçara. E foi nojento abraça-lo. Nojento sentir novamente contornos masculinos de um corpo jovem. Fora a dor do próprio corpo cujas feridas a lembravam, o tempo todo, que ela não era mais dela e, sim da merecida punição culposa.
Foi necessário um tratamento psicológico, sim. Terapia e tudo mais que só serviu pra fazê-la esquecer, no dia-dia, o acontecimento. E ela, ignorando tudo, terminou com o namorado (que ela não sabe, mas se matou) e não teve mais nenhum, entrou pra uma faculdade, pra um curso qualquer, arrumou estágio, emprego aos trinta anos, e pôde sofrer com outras coisas, como a morte do pai, a viagem do irmão, o casamento da irmã mais velha... E o esquecimento é o estado sem o qual não existiria a lembrança. E ela lembrou e muito na vida. Como ferida que deixa pra doer quando o sangue esfria. Uma contusão na memória, na moral, na sensibilidade que vem de vez em quando, e isso é que dói - ainda se surpreender com a dor mais marcante de sua vida.
Foi algo que a impediu de querer ter filhas, de fazer filhos. Algo que mudou seu sonho pra coisas menos cheio de perspectivas e seus desejos se resumiriam ao jantar da noite. Pois as noites eram reservadas a janta e a liberdade dos sapatos e calças – inibidores de sua vaidade e protetores de sua integridade.
E amor é aquilo que se sente na infância, pelos pais e pela vida. Depois isso se perde e vira saudades só. O resto é interesse, lascívia.
A partir daqui, ela esquece o que aconteceu. Ela só sofre por ter sido amputada, por ter sofrido a penetração de sua intimidade e já esquecida de detalhes, evita encarar o quadro. Joga fora sua vontade, come vergonha três vezes ao dia, evita o espelho, a nudez do banho, os segredos da noite e nunca, em hipótese alguma, sente-se capaz de se doar a qualquer coisa. Nem a si mesma. Nem às maquiagens. E pouquíssimas são as festas que a atraem. Ou melhor, ela mal escuta a força de sua atração. Ou melhor, ela não tem forças. Ou não tem audição.
E por um dia ter doído, ela optou por se proteger no quarto pra impedir que a vida ardesse, se procriasse e se recriasse.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Tema: Preguiça

E por razões um tanto quanto óbvias, eu acabo não estendendo a prosa hoje...

(Mãinha, tem remédio pra veneno de escurpião, tem?)