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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Tema: Giz

Desenhar coisas na areia é por si só um cliché tão completo que até o mar apaga pra não cansar.

domingo, 24 de outubro de 2010

Tema: Ginástica Rítmica

Por mais ou menos uma semana as coisas corriam um pouco bem demais. Já me acusaram de gostar de sofrer ou até de masoquismo mas estou certo de que não é o caso: as coisas estavam muito bem. Averiguei nos não muitos metros quadrados da praia ao meu redor todas as árvores frutíferas, fontes de água doce, tudo pra me manter bem. Minha casinha ficava no lugar mais seguro e com a melhor vista e eu, sistemático que sou, listei, só de cabeça mesmo, todos os lugares que dava pra deitar e olhar alguma coisa, os que pareciam cenário de algum filme ou um quadro qualquer e os que me lembravam outros lugares. Pronto. Por uma semana tudo estava no lugar, a vida corria bem, tudo estava dentro dos conformes.
Mas com o tempo, de repente os conformes foram virando de cabeça pra baixo e tudo que era certo foi ficando errado e no final eu ficava só sentado vendo as ondas batendo uma atrás da outra, como se alguém girasse um pedal num ritmo constante, uma a uma, nas pedras desajeitadas e pontiagudas que faziam daquilo um deserto.
Naquela ginástica rítmica, uma onda mais forte chegou de mansinho até perto de mim, molhou meu pé e eu senti a agua, tênue e fresca. Aí eu pensei nas pedras e em como os ditados populares são sábios. Fechei os olhos e no "escuro" do fim de tarde eu vi a ultima cena daquele filme: "Le temps detruit tout".

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Tema: Amarelo

Logo que me senti só nesse mundo me lembrei da frase que eu li nas legendas de letras miúdas de um filme que eu vi: "Não há nada a temer! Sou o rei do meu próprio reino, mesmo sendo ele tão pequeno! Eu sou um artista!" e tratei logo de construir uma casa.
Lembrei dos meus amigos, especialmente de um deles que vivia intrigado com o fato de eu ter construído uma casa na árvore quando eu tinha uns seis ou sete anos. Ri um pouco enquanto fazia um telhado de folhas de coqueiro e percebi que esses saberes são mesmo um reino. Enquanto eu pensava nos limites dos meus reinos as folhas foram secando na sombra e ficaram completamente amarelas. Depois disso se eu olhava pro teto ou pro por do sol sentia o mesmo: pensava em errar nos reinos fora dos meus domínios e em todas as frases de cartas de amor que eu nunca escrevi.
"Uma hora você vai perceber que eu sempre fui o grande amor da sua vida, e vai ver que já é tarde demais. E por isso vai deixar pra me ligar no outro dia bem cedo e começar todo o resto". E então eu olhei pro sol nascendo e percebi que o amarelo é sempre o mesmo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Tema: Discos Voadores

Enquanto eu olhava pro mar e via as dezenas de pedras que faziam as ondas selvagens se transformares em uma espuma suculenta, eu pensava em coisas estranhas. Sempre pensei em como seria bonito ver uma baleia azul no espaço, vagando sem gravidade, "and I'm floating in the most peculiar way". Mas nenhum pensamento estranho se comparou com os que eu tive quando avistei uma pessoa em um barco, algumas centenas de metros depois das pedras.
Não sei a localização da praia mas sei que por uns tempos fiquei observando pra me certificar: não era rota de barco nenhum. O máximo que eu via era a rota de alguns aviões que eu cheguei até a desenhar mais tarde. Via os aviões no principio e torcia pra que algum voasse baixo e eu pudesse acenar, ver alguém, sair daquilo tudo. Mas o tempo foi passando e eu percebendo que a vida seguia e que as coisas timidamente melhoravam. Desde que naufraguei naquela ilha não passei sequer um dia em silêncio: tentava lembrar as letras das canções que mais gostava, e lá pela segunda semana lembrei de Etta James e de sua "I'd rather be blind" e já comecei a perceber como meu inglês melhorava, porque agora era pra mim e só pra mim, e eu entendia tudo o que queria dizer.
Quando eu vi o jangadeiro solitário, perguntas como "será que ele vem de um barco maior?" ou "será que mora por aqui e costuma chegar até essa praia?" ocuparam minha cabeça e não me deixaram perceber que eu acenava e gritava como um louco. Tenho a impressão de que ele me viu, mas nunca saberei porque quando cogitei a possibilidade, uma espécie de ato reflexo já me fez pular na areia, num nível onde as pedras e a espuma das ondas já faziam toda aquela agitação parecer miragem a qualquer homem do mar. Naquele instante percebi o que estava acontecendo e que já fazia um bom tempo que eu já me fazia acreditar que aquelas luzes brilhantes em movimento no céu eram discos voadores e cantarolava sorrindo, "and the stars look very different today".

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Tema: Massinha

Já faziam quatro semanas que eu não conversava com ninguém e naquele momento aquilo parecia algo muito bom. Poucas roupas e pertences e quase tudo molhado e sujo, naquela bagunça pós-tempestade e eu só conseguia me lembrar dos meus discos e de como devia ser naufragar no espaço como o Major Tom da musica do David Bowie.
Nunca tive muita coisa, mas sempre o que tive foi precioso. Agora pra mim eu organizava num canto as minhas coisas e numa marmita de metal eu guardava coisas pra memória: um pacote inteiro de massinha de modelar que eu usava pra fazer bonequinhos - todos verdes, a unica cor que eu tinha - das pessoas importantes pra mim: a Yoko, minha cachorrinha, meus pais, meu irmão, Gabriel Garcia Marquez e mais uma meia dúzia de pessoas que ainda estavam comigo sempre.
Das nove semanas que eu passei naquela praia estranha e deserta, a ultima foi a que eu mais pensei. Armazenei umas frutas debaixo da árvore, um pouco de água, assentei e pensei. Pensei muito. Pensei em como deve ser viver na pele de um cachorro, sobre como boa parte da vida é desnecessária, como as coisas não fazem muito sentido e que a gente só fica em paz quando aceita isso, e como Tom Jobim errou na letra de "Wave": é plenamente possível ser feliz sozinho.Pessoas de massinha são seres humanos perfeitos ainda que tortos e mal feitos, inclusive, porque os de verdade são assim também.
Pensei tanto que esqueci de pensar em o que que seria da minha vida: foram os primeiros dias que eu não pensei nisso, e justo quando eu aceitei a condição de náufrago e já funcionava como um eremita perfeito, veio uma tempestade denovo e eu fui engolido sorrateiramente pelo mar e acordei na enfermaria de um clube à beira mar de uma praia de Santa Catarina.
Desde então, quando dá eu viajo pro litoral e perambulo de praia em praia atrás das minhas pessoas de massinha e da saudade que eu tenho de mim.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Tema: Lady Gaga

Eu fico puto! disse ele puxando a cadeira, e ela na frente com cara de que não tinha muito ânimo de ir sempre naquele bar do outro lado da rua da faculdade já arqueava as sobrancelhas, com cara de "não importa o que você disser".
"A vida é assim meu bem, além do que ela funciona muito bem pra o que ela se propõe... é tipo um Marylin Manson tocando musica pra adolescente: com aqueles "metal" de começo de carreira ele nunca ia alcançar o mundo de gente que ele, pop, alcança..."
Já no terceiro copo ele fazia cara de entendido pra dar mais valor ao argumento, mas já percebia que pelo arquear das sobrancelhas da garota em sua frente - de copo cheio, o primeiro, já quente - não era só aquela discussão que não chegaria a lugar nenhum: "Mas é um clássico! Alladin Sane é um clássico! Ela não tinha direito sabe?"
"Você tá falando dessa coisa de clássico e não sei mais o que já tem horas!"
"Mas é um classico! E dos fodas!"
"Que seja! Cansa, sabia? Além do que, quando o Seu Jorge fez a trilha do "Life Aquatic", com aquelas versões bizarrícimas, você achou o máximo!"
"Pô, mas era Wes Anderson! Mereceu orabolas!"
"Seu problema é que você é cultzinho demais pra conviver com as coisas sabia!?! Inclusive, quer saber? Eu vou embora daqui porque eu já sinto muito que você é cultizinho demais pra conviver comigo! Vou indo antes que eu canse e vá pra não voltar!"
"Pois vá! E se quiser não volte!"
"O que? Perai! Tá me zuando né?"
"Não, eu também já tô de saco cheio..."
"Deixa eu ver se eu entendi... você tá falando sério sobre isso mesmo? E a discussão começou porque eu disse que achava legal a porcaria de um raio pintado na cara da Lady Gaga? Na boa!"
"O raio é do David Bowie."

sábado, 24 de julho de 2010

Tema: Janela

Todo mundo vê a vida apenas através dos próprios olhos e tudo é recorte. Se dois corpos não podem ocupar no mesmo instante o mesmo lugar no espaço, e vivemos sempre submetidos ao tempo e ao espaço, ninguém nunca viu exatamente a mesma coisa que outra pessoa. Todo recorte é particular e a janela não é um buraco na parede e sim um pedaço da paisagem.

domingo, 18 de julho de 2010

Tema: Umbigo

Raimundo era um nome até bem comum pra uma pessoa tão peculiar. Como se não bastasse o fato daquele homem de estatura média e olhar distante ser estranhamente normal e comum, daquele jeito que incomoda, ele possuía uma peculiaridade um pouco mais impar: Raimundo não tinha umbigo. Ninguém sabia de onde ele tinha vindo, nem nada de famílias ou documentos, só sabiam que ele era bom.

Envolveu-se com varias garotas na vida, mas nenhuma deu certo. Era emotivo, mas nunca passava das lagrimas no travesseiro e as conversas chorosas de bar, mas quando se dava pra alguém era de corpo e alma. Uma das vezes que ficou mais intrigado com um de seus pseudo-relacionamentos foi quando uma garota lhe perguntou se ele pensava que o mundo girava ao seu redor e ele realmente não entendeu nada. Era incapaz de fazer mal a alguém, de pensar em si antes dos outros ou de se utilizar de algum juízo de valor pra comparar as pessoas a si.

Certa vez conheceu uma garota que funcionou mais do que as outras e ele por um instante começou a se sentir alguém.Cortou o cabelo, comprou roupas novas, decidiu até tirar os documentos que nunca teve e procurar um lugar melhor pra morar. Achava-se meio feio, mas pela primeira vez se achava alguma coisa, e percebeu que recebia dela o que nunca soube que procurava. Olhou um apartamento numa sexta, três dias antes do dia em que ia sair pra tirar sua primeira certidão de nascimento, que ele nunca se importou se tinha. Ironicamente ela o deixou no domingo, e toda aquela coisa que havia passado a existir e que pra ele foi tão grande, ele percebeu que não passou de uma coisa qualquer pra ela.

Incapaz de ter agir com ódio ou rancor, só os sentiu por dentro, mas não fez nada de mal pra garota, até pelo contraio. O que ele não sabia é que ela também tinha sérios problemas e viva de bem com a vida à base de ser agredida e ofendida por todos os homens que já teve e se sentir em paz como uma boa e confortável vítima. Mas não dessa vez. Enlouquecida com o fantasma da culpa que lhe contemplava com cem por cento dos motivos daquela degradante e inédita situação, a garota o procurou, esperando alguma resposta que a deixasse em paz.

Encontraram-se e ele, inofensivo, despertou nela uma loucura demoníaca, ela não suportava a culpa. Depois de uma conversa que terminaria com um abraço de “bons amigos”, ela, no cúmulo da loucura, lhe enfiou no ventre um talher da lanchonete onde se encontraram, na tentativa de se livrar daquele demônio interior que estava em sua frente.

Em um impulso súbito de uma espécie de amor próprio que ele nunca teve, por um instante se achou digno de existir e se colocou na frente de todo o resto, e antes que ela lhe golpeasse novamente, Raimundo a pegou pelo pescoço e ela já estava morta por legítima defesa quando ele caiu desfalecido pela quantidade de sangue que perdera.

No dia seguinte, no hospital, o médico disse que Raimundo havia nascido de novo, e ele o corrigiu dizendo que na verdade ele havia só nascido, seria registrado no mesmo dia. Um pouco intrigado mas com um certo senso de humor, o médico sem saber brincou: “Você teve sorte! Não vai restar cicatriz aparente, a garota te enfiou uma faca bem em cima do seu umbigo!”

terça-feira, 6 de julho de 2010

Tema: Vaidade

_É engraçado se perguntar isso, mas eu sempre me perguntei porque depois do sexo ela demorava duas horas se maquiando, se segundo ela era pra mim que ela se maquiava, e mesmo sem maquilagem eu já achava ela linda e nunca deixava de dizer isso.
_Vaidade?
_Nunca soube, acabou antes de eu entender.
_Eu sempre fui de teoria da conspiração quanto a ela e você sabe o que todo mundo pensa da menina... acho que ela se maquiava para os outros homens, que que você acha?
_É, tá ai... na verdade eu acho que eu sempre soube que devia ser isso mesmo... ela não era mulher de um homem só, devia ser isso... ou melhor, certamente era isso mesmo!
_Mas você engolia isso sem problemas? No seu lugar, se eu soubesse disso largava logo o osso!
_Mas ela era linda e eu gostava de ter ela por perto...
_Mesmo assim! Pra engolir só se fosse por sentimento maior! Você acha que era amor no seu caso?
_Aí é que tá. Não era não... Era vaidade. No fim das contas ela se maquiava pra minha própria vaidade.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Tema: Frango

_Post mortem que você disse?

_Você já matou um frango?

_Me responde antes! É impulso post mortem?

_Você vai entender: geralmente no interior quando você mata um frango com faca e corta a cabeça fora, não é raro ver o bicho sair correndo esguichando sangue pelo pescoço sem cabeça.

_Lorota.

_É sério. Ele corre por causa dessa coisa de impulso post mortem. Frango tem muito disso.

_Que seja, eu não acredito. Mas o que tem isso tudo a ver com o que você ia dizendo?

_O que eu tava dizendo é que nessa coisa toda você não pode é correr desorientado atrás do frango. Você cansa, fica todo ensangüentado e no fim percebe o mais obvio: ele já está morto, não vai chegar a lugar nenhum.