- Cerveja, é claro! – pediu.
Os dois desataram uma conversa riquíssima sobre valores, saudades e futebol. Era muito cedo.
- Caro amigo, eu creio mesmo que por tão pouco nos vermos, nossa conversa é como carta que, de tão atrasada, chega envelhecida com aquela cor do tempo. A sensação, obviamente, é angustiante...
- Meu querido quase-irmão... Sinto saudades. Peguei recentemente aquele ônibus que pegávamos juntos para ir ao Horto, naquele bar que o Moreira descobriu e disse ser o melhor da cidade... lembra? Pois eu me lembro e me emociono quando, nas finais do Mineiro, posso colocar aquela camisa que usei naquela final do Brasileirão...
-... ando pegando muitos ônibus diferentes, vendo muita gente sem graça; tenho falado muito por falar, levado muito na cara. A preguiça se apoderou de mim. Tenho vivido muito no sofá, tenho vivido muito mais de boa tarde do que de bom dia e, definitivamente já não sei o que é boa noite. Apartamento é terrível, meu irmão. É uma fôrma dessas em que a gente põe água e espera virar gelo. Não fosse o calor que me deixa meio febril, meio hepático, talvez eu tivesse mesmo virado gelo...
-... tentei procurar companhia, busquei aqueles velhos problemas. Acho que não te contei, mas revi Carolina recentemente. Foi estranho que após tanto tempo ela me procurasse. Ela ainda continua loira, farta, voluptuosa e senti meu estômago se revirando naquelas duas horas em que fiquei esperando ela chegar ao bar. Conversamos por algumas horas, driblando as interrupções vindas do resto da mesa e ela se mostrou interessada em mim, encantada como nunca antes, proferindo elogios e (maldição) enaltecendo minha inteligência. Sabes como eu sou fraco no ego, não? Dei pra esbanjar. Ela elogiou minha sensibilidade. Incrementei o assunto com perguntas. E eis que ela vem me contar de um trabalho final de sua faculdade. Em suas explanações, a filha da mãe me solta um “no meu trabalho, eu vou seguir três vertigens”... Eu duvidei. Continuei o assunto, ela queria dizer "vertentes", tenho certeza... mas repetiu o erro. "Olha, que legal, é bom trabalhar essa vertigem também", ela disse quando eu dei um pitaco que condensava e explicitava essa minha sensibilidade e intelectualidade. Fiquei olhando para aquela boca, pensando com dentes cerrados... "vertigens"... "vertigens"... tentei imagina-la me chupando, calada, ou simplesmente sorrindo. Fiquei triste - já não gosto mais das bocas só por imaginá-las me chupando. É horrível quando você cria esse tipo de exigência: bocas com conteúdo o suficiente para que não exista esse ímpeto de preenchê-las com sabe-se-bem-o-que...
-... consegui muita coisa na vida, cara. Salário, apartamento, namorada, ex-namorada, garrafa de whisky, livro de auto-ajuda. Tudo o que um homem feito precisa. Sempre existem coisas a serem lembradas e você está aí para não me deixar mentir. Tenho muitas lembranças em sépia em processo de desbotamento. Falo muito com as mesmas pessoas, mas parece que falo sempre as mesmas coisas, de uma maneira tão cíclica e viciada, tão rasa...
-... eu já desconfiei mesmo, como costumávamos desconfiar em nossas tardes ociosas de casa vazia, que tudo isso é mesmo enganação ou criação minha. Os códigos que usamos para pedir o leite, para comprar o pão são tão desestimulantes. Eu sinto falta de mudar a ordem das coisas, de pichar o muro, de beijar um homem...
-... sinto falta de me especializar em trivialidades. Tentei ser enólogo, mas é profissional demais. Resolvi provar cachaça – quanto mais amarela, mais velha, mais curtida, mais amarga, melhor. Irônico, não?
-... no entanto, estou bem. Duas vezes por semana vem uma faxineira. Ela é crente...
-... meu maior inimigo é o tédio...
-... o trânsito anda caótico por aqui. Não consigo chegar em casa antes das seis...
-... a vida já bateu, mas hoje não bate mais tão forte assim...
-... meu calo me fez perder a sensibilidade no pé...
-... no coração...
-... portanto...
-... não me estendo mais...
-... o tempo urge...
-... o tempo passou, né?...
-... tomara que nos encontremos...
-... Com carinho...
-... atenciosamente...
-Garçom, a conta – já era tarde, não havia luz suficiente para as cartas. Era melhor ir embora cuidar da febre.
domingo, 26 de setembro de 2010
sábado, 25 de setembro de 2010
Tema: Amarelo
Sobre o ornato oval de um capitel
Hoje foi o dia que o mais alto grau de percepção humana tocou-me a porta, assim, logo de manhã, antes mesmo da possibilidade de eu abrir os meus olhos, uma luz amarela veio, em uma intensidade inexplicável, e o fez. Ergui-me primeiramente leve, segundamente ansioso, e em um movimento quase simultâneo eu me levantei da cama e olhei para o criado-mudo ao lado. Havia nele um isqueiro, um acendedor de cigarros, um causador de incêndios, um queimador de fiapos indesejados que a vida nos oferece, um criador de iluminação para Neandertais, era arte, era tudo isso em um objeto branco, visualmente simples e inocentemente tolo. Mas, por incrível que pareça, a única função que aquela tolice tem para mim é a de tirar a tenuidade do meu caminho. Quando eu o pego e o executo vem junto disso um desabafo descomunal, excessivo, que deveria me perseguir diariamente, isto é, se eu fosse o grande senhor das minhas fatalidades, e forças que predispõem os acontecimentos que me permeiam. “Não! Você não é! Não tem o controle!”
Uma incerteza, como aquelas faixas amarelas estampadas no asfalto da avenida larga onde sua avó rica comprou um novo apartamento com o dinheiro da aposentadoria que o presidente solene proporcionou a ela. Farta aposentadoria, outra tolice. Se fosse farta de fato a velha pagaria um bom dentista para tirar o amarelo dos dentes que acabam apresentando ao mundo um sorriso antipático que faz dela uma velha ranzinza. Desde os meus doze anos vejo aquela porta entreaberta e vou entrando acreditando que posso confiar na dúvida do desconhecido. Estupidez infantil. A incapacitada vem logo dizendo para eu tirar os meus sapatos, que não quer ver, sequer, uma mancha amarela no piso branquinho que a empregada (que mais parece uma governanta parisiense) acabou de limpar.
Quando eu atingi uma idade mais perigosa, peguei o meu isqueiro e, achando que estava fazendo um favor e contribuindo para a felicidade das pessoas que me rodeavam, incendiei o prédio onde a mãe da minha mãe morava. Logo, em questão de poucos minutos uma chama leve e amarela, se tornou monstruosa e amarela, meus olhos seguiram o tom do amarelo que tinha se alojado em torno da moradia de mais de quarenta pais de família devidamente empregados e supostamente felizes. Foi um desabafo, como eu já disse.
Dizer a respeito de qualquer coisa requer uma capacidade mínima de formalizar algo em uma linearidade que possa ser compartilhada. O amarelo não é assim; nem sempre precisa ser linear para dizer aos outros que a vida pode estar em perigo ou em êxtase, dependendo do lugar em que você está quando o sol se põe. Você se dispõe a tamanha fantasia que a luz do dia, simplesmente, não consegue atingir, e a frustração vem logo cedo acompanhada de um copinho de isopor com uma porção decadente de café com leite. Sua avó é quem fez? Eles te perguntam em um tom de desacato e vomitam a falácia que, por questões sociais, deve ser contemplada. Não te deixam acreditar em nada. E outra fábula que faz parte do discurso deles é: Você precisa matar a sua avó - do ponto de vista psicológico -, aniquilar a velha. E você, taciturno, vai até o canto do quarto e adormece.
A característica mais instável minha, sua e talvez deles é o talento de, em algum ponto extremo da corrida humana, conseguir o equilíbrio entre o vermelho, o azul, o amarelo e o rosa; e, assim, colorir o fim da tarde com um profundo suspiro de quem quer acordar outra vez com o maior grau de percepção que um compassivo pode ter.
Hoje foi o dia que o mais alto grau de percepção humana tocou-me a porta, assim, logo de manhã, antes mesmo da possibilidade de eu abrir os meus olhos, uma luz amarela veio, em uma intensidade inexplicável, e o fez. Ergui-me primeiramente leve, segundamente ansioso, e em um movimento quase simultâneo eu me levantei da cama e olhei para o criado-mudo ao lado. Havia nele um isqueiro, um acendedor de cigarros, um causador de incêndios, um queimador de fiapos indesejados que a vida nos oferece, um criador de iluminação para Neandertais, era arte, era tudo isso em um objeto branco, visualmente simples e inocentemente tolo. Mas, por incrível que pareça, a única função que aquela tolice tem para mim é a de tirar a tenuidade do meu caminho. Quando eu o pego e o executo vem junto disso um desabafo descomunal, excessivo, que deveria me perseguir diariamente, isto é, se eu fosse o grande senhor das minhas fatalidades, e forças que predispõem os acontecimentos que me permeiam. “Não! Você não é! Não tem o controle!”
Uma incerteza, como aquelas faixas amarelas estampadas no asfalto da avenida larga onde sua avó rica comprou um novo apartamento com o dinheiro da aposentadoria que o presidente solene proporcionou a ela. Farta aposentadoria, outra tolice. Se fosse farta de fato a velha pagaria um bom dentista para tirar o amarelo dos dentes que acabam apresentando ao mundo um sorriso antipático que faz dela uma velha ranzinza. Desde os meus doze anos vejo aquela porta entreaberta e vou entrando acreditando que posso confiar na dúvida do desconhecido. Estupidez infantil. A incapacitada vem logo dizendo para eu tirar os meus sapatos, que não quer ver, sequer, uma mancha amarela no piso branquinho que a empregada (que mais parece uma governanta parisiense) acabou de limpar.
Quando eu atingi uma idade mais perigosa, peguei o meu isqueiro e, achando que estava fazendo um favor e contribuindo para a felicidade das pessoas que me rodeavam, incendiei o prédio onde a mãe da minha mãe morava. Logo, em questão de poucos minutos uma chama leve e amarela, se tornou monstruosa e amarela, meus olhos seguiram o tom do amarelo que tinha se alojado em torno da moradia de mais de quarenta pais de família devidamente empregados e supostamente felizes. Foi um desabafo, como eu já disse.
Dizer a respeito de qualquer coisa requer uma capacidade mínima de formalizar algo em uma linearidade que possa ser compartilhada. O amarelo não é assim; nem sempre precisa ser linear para dizer aos outros que a vida pode estar em perigo ou em êxtase, dependendo do lugar em que você está quando o sol se põe. Você se dispõe a tamanha fantasia que a luz do dia, simplesmente, não consegue atingir, e a frustração vem logo cedo acompanhada de um copinho de isopor com uma porção decadente de café com leite. Sua avó é quem fez? Eles te perguntam em um tom de desacato e vomitam a falácia que, por questões sociais, deve ser contemplada. Não te deixam acreditar em nada. E outra fábula que faz parte do discurso deles é: Você precisa matar a sua avó - do ponto de vista psicológico -, aniquilar a velha. E você, taciturno, vai até o canto do quarto e adormece.
A característica mais instável minha, sua e talvez deles é o talento de, em algum ponto extremo da corrida humana, conseguir o equilíbrio entre o vermelho, o azul, o amarelo e o rosa; e, assim, colorir o fim da tarde com um profundo suspiro de quem quer acordar outra vez com o maior grau de percepção que um compassivo pode ter.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Tema: Discos Voadores
Enquanto eu olhava pro mar e via as dezenas de pedras que faziam as ondas selvagens se transformares em uma espuma suculenta, eu pensava em coisas estranhas. Sempre pensei em como seria bonito ver uma baleia azul no espaço, vagando sem gravidade, "and I'm floating in the most peculiar way". Mas nenhum pensamento estranho se comparou com os que eu tive quando avistei uma pessoa em um barco, algumas centenas de metros depois das pedras.
Não sei a localização da praia mas sei que por uns tempos fiquei observando pra me certificar: não era rota de barco nenhum. O máximo que eu via era a rota de alguns aviões que eu cheguei até a desenhar mais tarde. Via os aviões no principio e torcia pra que algum voasse baixo e eu pudesse acenar, ver alguém, sair daquilo tudo. Mas o tempo foi passando e eu percebendo que a vida seguia e que as coisas timidamente melhoravam. Desde que naufraguei naquela ilha não passei sequer um dia em silêncio: tentava lembrar as letras das canções que mais gostava, e lá pela segunda semana lembrei de Etta James e de sua "I'd rather be blind" e já comecei a perceber como meu inglês melhorava, porque agora era pra mim e só pra mim, e eu entendia tudo o que queria dizer.
Quando eu vi o jangadeiro solitário, perguntas como "será que ele vem de um barco maior?" ou "será que mora por aqui e costuma chegar até essa praia?" ocuparam minha cabeça e não me deixaram perceber que eu acenava e gritava como um louco. Tenho a impressão de que ele me viu, mas nunca saberei porque quando cogitei a possibilidade, uma espécie de ato reflexo já me fez pular na areia, num nível onde as pedras e a espuma das ondas já faziam toda aquela agitação parecer miragem a qualquer homem do mar. Naquele instante percebi o que estava acontecendo e que já fazia um bom tempo que eu já me fazia acreditar que aquelas luzes brilhantes em movimento no céu eram discos voadores e cantarolava sorrindo, "and the stars look very different today".
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Tema: Discos Voadores
Passei anos de minha vida tentando meditar e foi só neste ou naquele dia (se o tempo realmente for relativo) que cheguei mais próximo de tal façanha.
Tendo acordado de um cochilo que durou a tarde inteira, pensei em abrir a janela e saciar aquela curiosidade em saber que cor o céu teria exatamente às seis horas da tarde num dia quente de inverno, como este ou aquele de nossos tempos. Meu corpo não queria fazer grandes esforços e, com um mínimo de movimento possível, empurrei a janela ao lado da cama.
Era um anil fosco, quase roxo, quem sabe ainda, outra cor que só existe em outra língua. Pus os olhos fixos na casa ao lado, cujo nome é varanda - por metonímia.
Era tanto pássaro, tanto, tanto, que meu ouvido se confundiu – e esse momento foi a delícia de só ser. Abarquei outros sons, e caí novamente da corda bamba do não-pensar. Mas que se foda. E eu pensei sobre meus próprios pensamentos, tal qual metalinguagem, enquanto, em paralelo, me admirava o fato de ainda haver sons de crianças pela rua.
Às vezes acho que sou o cara mais novo do mundo. E isso quer dizer que eu tenho medo demais. Medo - medo mesmo - é aquele sinal de que falta algo e que, no final das contas, você pode estar desamparado ou morto. O medo é feito de, pelo menos, duas partes, apoiadas pela idéia de possibilidade. O medo é um triangulo invertido que começa na realidade e termina na imaginação.
Disse alguém lá do outro lado das águas, que navegar era preciso. Disse isso, mas o fez já algum tempo depois das Navegações e um tempo antes de irmos ao espaço. Sei que é tolice dizer que houve qualquer Pessoa sem medo, mas acho que o autor dessa frase só pôde ter dito algo tão perigoso assim, por ter estado num momento em que tudo era centrado demais – não havia mais nada além dos mares e algo além da Terra era muita pretensão.
Além da terra é pretensão demais.
Além da humanidade é pretensão demais. Penso que é preciso voltarmo-nos aos seres humanos para voltarmos a ser humanos – falo isso olhando pros céus, imaginando coisas sobre uma luz mais forte, que é Vênus; e eu sigo cismado com os signos de touro ao meu redor, com as pernas que passam e eu não posso tocar, com esse impulso carnal que é a arte aqui na boca do estômago, com a astrologia, que, diz-se por aí, vem dos céus também. E se não for Vênus e nem verdade?
É aí que surge o medo.
Chega um outro som aos meus ouvidos, desfazem-se o medo do medo e a inquietação borbulhante aqui dentro. Por ora.
Tendo acordado de um cochilo que durou a tarde inteira, pensei em abrir a janela e saciar aquela curiosidade em saber que cor o céu teria exatamente às seis horas da tarde num dia quente de inverno, como este ou aquele de nossos tempos. Meu corpo não queria fazer grandes esforços e, com um mínimo de movimento possível, empurrei a janela ao lado da cama.
Era um anil fosco, quase roxo, quem sabe ainda, outra cor que só existe em outra língua. Pus os olhos fixos na casa ao lado, cujo nome é varanda - por metonímia.
Era tanto pássaro, tanto, tanto, que meu ouvido se confundiu – e esse momento foi a delícia de só ser. Abarquei outros sons, e caí novamente da corda bamba do não-pensar. Mas que se foda. E eu pensei sobre meus próprios pensamentos, tal qual metalinguagem, enquanto, em paralelo, me admirava o fato de ainda haver sons de crianças pela rua.
Às vezes acho que sou o cara mais novo do mundo. E isso quer dizer que eu tenho medo demais. Medo - medo mesmo - é aquele sinal de que falta algo e que, no final das contas, você pode estar desamparado ou morto. O medo é feito de, pelo menos, duas partes, apoiadas pela idéia de possibilidade. O medo é um triangulo invertido que começa na realidade e termina na imaginação.
Disse alguém lá do outro lado das águas, que navegar era preciso. Disse isso, mas o fez já algum tempo depois das Navegações e um tempo antes de irmos ao espaço. Sei que é tolice dizer que houve qualquer Pessoa sem medo, mas acho que o autor dessa frase só pôde ter dito algo tão perigoso assim, por ter estado num momento em que tudo era centrado demais – não havia mais nada além dos mares e algo além da Terra era muita pretensão.
Além da terra é pretensão demais.
Além da humanidade é pretensão demais. Penso que é preciso voltarmo-nos aos seres humanos para voltarmos a ser humanos – falo isso olhando pros céus, imaginando coisas sobre uma luz mais forte, que é Vênus; e eu sigo cismado com os signos de touro ao meu redor, com as pernas que passam e eu não posso tocar, com esse impulso carnal que é a arte aqui na boca do estômago, com a astrologia, que, diz-se por aí, vem dos céus também. E se não for Vênus e nem verdade?
É aí que surge o medo.
Chega um outro som aos meus ouvidos, desfazem-se o medo do medo e a inquietação borbulhante aqui dentro. Por ora.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Tema: Discos Voadores
Dádiva da mãe Amália
- Pep, olha o que mama comprou para voi!
- Que mama?
- Este é um dispositivo substancioso que armazena canções.
Josep, desapontado com suas bolachas, resolveu se afeiçoar. Foi até o móvel no vão da parede, agachou empinando a bunda para a vida, e arremessou todos os seus discos, um a um.
- Pep, olha o que mama comprou para voi!
- Que mama?
- Este é um dispositivo substancioso que armazena canções.
Josep, desapontado com suas bolachas, resolveu se afeiçoar. Foi até o móvel no vão da parede, agachou empinando a bunda para a vida, e arremessou todos os seus discos, um a um.
domingo, 5 de setembro de 2010
Tema: Discos Voadores
Noite, falta de sono, madeira.
Pense em branco. Pense em um espaço branco. Adicione paredes, chão e teto. Cubra as paredes de rachaduras e pó, o chão de tábuas corridas também poeirentas. O teto coberto por telhas, é afastado do fim da parede tornando assim todos os cómodos uma única sala grande separada por divisórias de concreto. Volte sua atenção ao quarto maior, cubra-o de móveis antigos, de madeira pesada e resistente, feito para durar séculos. Os dois sofás velhos encostados na parede, o chão repleto de colchões separados por certa distância uns dos outros. Em um destes ele rola inquieto. Sua boca esta seca e sua cabeça dói, quando acordou, um pouco atordoado, demorou para se dar conta de onde estava. Ao abrir os olhos primeiro viu uma luz branca, rapidamente a vista escureceu e notou manchas que aos poucos se tornaram paredes, chão, teto, rachaduras, tábuas corridas, pó e telhas. O silêncio era composto de sons de insetos, respirações anestesiadas, o vento forte que batia na porta de madeira pesada e resistente feita para durar séculos, e por fim sua dor de cabeça. Seu corpo está coberto de suor, ele está perdendo pelo corpo toda a água que sente falta nos lábios rachados. Está cansado de rolar na cama e de tentar diversas posições para voltar ao sono na esperança de acordar por vez de manhã quando se sentirá melhor. Ele se levanta. Na cozinha escurecida, ele se desloca com dificuldade entre as latas e garrafas vazias espalhadas pelos cantos e centro, tromba em uma cadeira que descansa em um lugar aleatório, não se machuca. Toma um copo de água do galão de vinte litros quente que está na metade. Sua dor de cabeça não melhora e ainda sente sede. Toma outro copo de água. Derrama um pouco de água no chão, mesmo na metade os galões de vinte litros tornam a tarefa de se encher um copo de água muito complexa, estar semi-alcoolizado, com sono e dificuldade de enxergar no escuro não o ajuda. Ele se senta, enterra as mãos no rosto. Está cansado e sente falta de sua cama. O vento fora da casa é forte e intimidador. Exita por um instante, porém decide tomar um ar esperando assim aliviar as dores no corpo e o pensamento. Do lado de fora a paisagem é composta por manchas escuras, sendo possível identificar os objetos apenas por sua forma. Mato, cerca, árvore. Pense em um céu claro, onde se vê sem dificuldade constelações, planetas e uma enorme lua. Quando sua vista acostuma ele nota, que as manchas estão cobertas por uma luz prateada, os objetos estão mais nítidos, quase brilhantes. Mato, cerca, árvore. Olhando para o céu ele é tomado por sentimentos nostálgicos e lembra da sua infância, da sensibilidade que perdeu. Na cidade as pessoas são privadas do céu e dos agrados da natureza. Sem razão, nem rumo, ele começa a caminhar. O vento lhe dá uma boa sensação de frescor. Nota um som estranho, que gradualmente aumenta, é como o barulho do canto das cigarras ampliado centenas de vezes. O vento se torna mais forte e muda de direção. Adrenalina, medo, tensão. Seu corpo se torna novamente coberto por suor, se continuar assim seus lábios novamente irão rachar e sua cabeça voltará a doer. Confuso e assustado ele olha para os lados e não consegue encontrar a casa. A paisagem está ainda mais clara. Ele sente uma força agindo sobre seu corpo, feito estar em uma piscina que está sendo esvaziada. Olha então para cima. Pense em branco.
Pense em branco. Pense em um espaço branco. Adicione paredes, chão e teto. Cubra as paredes de rachaduras e pó, o chão de tábuas corridas também poeirentas. O teto coberto por telhas, é afastado do fim da parede tornando assim todos os cómodos uma única sala grande separada por divisórias de concreto. Volte sua atenção ao quarto maior, cubra-o de móveis antigos, de madeira pesada e resistente, feito para durar séculos. Os dois sofás velhos encostados na parede, o chão repleto de colchões separados por certa distância uns dos outros. Em um destes ele rola inquieto. Sua boca esta seca e sua cabeça dói, quando acordou, um pouco atordoado, demorou para se dar conta de onde estava. Ao abrir os olhos primeiro viu uma luz branca, rapidamente a vista escureceu e notou manchas que aos poucos se tornaram paredes, chão, teto, rachaduras, tábuas corridas, pó e telhas. O silêncio era composto de sons de insetos, respirações anestesiadas, o vento forte que batia na porta de madeira pesada e resistente feita para durar séculos, e por fim sua dor de cabeça. Seu corpo está coberto de suor, ele está perdendo pelo corpo toda a água que sente falta nos lábios rachados. Está cansado de rolar na cama e de tentar diversas posições para voltar ao sono na esperança de acordar por vez de manhã quando se sentirá melhor. Ele se levanta. Na cozinha escurecida, ele se desloca com dificuldade entre as latas e garrafas vazias espalhadas pelos cantos e centro, tromba em uma cadeira que descansa em um lugar aleatório, não se machuca. Toma um copo de água do galão de vinte litros quente que está na metade. Sua dor de cabeça não melhora e ainda sente sede. Toma outro copo de água. Derrama um pouco de água no chão, mesmo na metade os galões de vinte litros tornam a tarefa de se encher um copo de água muito complexa, estar semi-alcoolizado, com sono e dificuldade de enxergar no escuro não o ajuda. Ele se senta, enterra as mãos no rosto. Está cansado e sente falta de sua cama. O vento fora da casa é forte e intimidador. Exita por um instante, porém decide tomar um ar esperando assim aliviar as dores no corpo e o pensamento. Do lado de fora a paisagem é composta por manchas escuras, sendo possível identificar os objetos apenas por sua forma. Mato, cerca, árvore. Pense em um céu claro, onde se vê sem dificuldade constelações, planetas e uma enorme lua. Quando sua vista acostuma ele nota, que as manchas estão cobertas por uma luz prateada, os objetos estão mais nítidos, quase brilhantes. Mato, cerca, árvore. Olhando para o céu ele é tomado por sentimentos nostálgicos e lembra da sua infância, da sensibilidade que perdeu. Na cidade as pessoas são privadas do céu e dos agrados da natureza. Sem razão, nem rumo, ele começa a caminhar. O vento lhe dá uma boa sensação de frescor. Nota um som estranho, que gradualmente aumenta, é como o barulho do canto das cigarras ampliado centenas de vezes. O vento se torna mais forte e muda de direção. Adrenalina, medo, tensão. Seu corpo se torna novamente coberto por suor, se continuar assim seus lábios novamente irão rachar e sua cabeça voltará a doer. Confuso e assustado ele olha para os lados e não consegue encontrar a casa. A paisagem está ainda mais clara. Ele sente uma força agindo sobre seu corpo, feito estar em uma piscina que está sendo esvaziada. Olha então para cima. Pense em branco.
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