domingo, 24 de outubro de 2010
Tema: Ginástica Rítmica
Por mais ou menos uma semana as coisas corriam um pouco bem demais. Já me acusaram de gostar de sofrer ou até de masoquismo mas estou certo de que não é o caso: as coisas estavam muito bem. Averiguei nos não muitos metros quadrados da praia ao meu redor todas as árvores frutíferas, fontes de água doce, tudo pra me manter bem. Minha casinha ficava no lugar mais seguro e com a melhor vista e eu, sistemático que sou, listei, só de cabeça mesmo, todos os lugares que dava pra deitar e olhar alguma coisa, os que pareciam cenário de algum filme ou um quadro qualquer e os que me lembravam outros lugares. Pronto. Por uma semana tudo estava no lugar, a vida corria bem, tudo estava dentro dos conformes.
Mas com o tempo, de repente os conformes foram virando de cabeça pra baixo e tudo que era certo foi ficando errado e no final eu ficava só sentado vendo as ondas batendo uma atrás da outra, como se alguém girasse um pedal num ritmo constante, uma a uma, nas pedras desajeitadas e pontiagudas que faziam daquilo um deserto.
Naquela ginástica rítmica, uma onda mais forte chegou de mansinho até perto de mim, molhou meu pé e eu senti a agua, tênue e fresca. Aí eu pensei nas pedras e em como os ditados populares são sábios. Fechei os olhos e no "escuro" do fim de tarde eu vi a ultima cena daquele filme: "Le temps detruit tout".
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Tema: Ginástica Rítmica
Fita Amarela
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. Ela dizia de boca cheia. É dança e é arte sabe? O som alto de sua voz invadia a sala com aquele seu sotaque paulista irritante. Os anos se passavam, o jeito de falar não. Tão pouco deixava de incomodar. Ela nem ao menos nasceu lá, morou por três anos e olhe lá, porque não fala normal que nem a gente daqui? Pensava de vez em quando. Naquelas vezes em que ele estava mais cansado, e ela parecia falar mais alto, e mais paulista. Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Aquele noventa e seis, falado daquele jeito, dava uma dor de cabeça. Ainda esboçava uma cara de interessado, mesmo depois dos sete anos passados. Sete anos, sempre a mesma história. Depois de um longo dia de trabalho não era fácil. Balançava a cabeça, abria um sorriso hora ou outra e tomava o seu café silenciosamente. Ele era quieto, ela gostava disso. Podia contar suas histórias, ele iria ouvir. Se ela pudesse ouvir o que a cabeça dele dizia. Mas a boca se recusava a falar, e as coisas seguiam assim. O trabalho também não ajudava muito, o emprego de vendedor ia ser provisório, era pra segurar as despesas até ele se acertar, fazer aquela pós e virar professor. E de repente se passaram sete anos.
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. É dança e é arte sabe? Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Esse jeito de falar, esse jeito de falar. Ele pensava enquanto mordia o canto da boca. Ela nem era tão boa assim, nunca ganhou nada, o que eu sei é que ela era uma promessa, assim como centenas de outras garotas pelo país. Podia muito bem ter voltado a treinar quando se recuperou que eu sei, eu sei, já conversei com o pessoal da cidade dela. Não. É mesmo é uma preguiçosa, que gosta de ficar sentada nesse sofá o dia inteiro vendo novela. Harmonia, graça, beleza? Não tem nem mais rastros disso, esses anos no sofá vivendo o passado deixaram ela fora de forma, seu jeito de andar era engraçado e desajeitado, seus sonhos são amarelados e tristes, estão virados ao avesso, são apenas uma lembrança morna e mentirosa. E esse sotaque, esse sotaque. A cabeça dizia, a boca não.
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. É dança e é arte sabe? Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Mal tinha fechado a porta, o ponteiro apontava seis horas da tarde, tinha trabalhado o dia inteiro. Lidando com todos os tipos de pessoas, com aquele sorriso falso na cara, aquela simpatia fajunta. Olhou pra sala e viu aquela mulher, a televisão ligada como sempre, a mesa e o café frio esperando por seu silêncio e sua cara de interesse postiça. De repente ele para. Sua cabeça parou de pensar, se cansou de tanto dizer e a boca recusar a falar, e do corpo que nada faz. Sente na boca o gosto do café, o mesmo de todos os dias, sem calor, sem açúcar e sem afeto. Vê a mulher, que vê a tevê, que mostra pra ele que é tudo igual, a mesma trama, o mesmo horário. São seis horas e o tic tac do relógio diz, são seis horas e você não fez nada hoje, são seis horas e tem tempos que você não faz nada, nada que faça você esquecer das horas e de que lembre você que está vivo. Diz. Em tic tac mas diz.
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. É dança e é arte sabe? Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Diz o homem com um sotaque paulista exagerado e nada natural. A mulher amarrada na cadeira da mesa de jantar sua frio, está assustada e surpreendida. O homem vestido com a sua velha roupa de ginástica, ilustra todo o absurdo da situação. Repetindo essas mesmas palavras com o falso sotaque e a voz de forma afeminada, ele corre pela casa rapidamente, agita as fitas da maneira mais harmoniosa que consegue. Primeiro ele quebra a televisão, depois o relógio, segue quebrando coisa atrás de coisa, repetindo as mesmas palavras, sua boca nunca falou tanto, seu sangue corre quente, a cabeça pensa: to vivo relógio filho da puta!
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. É dança e é arte sabe? Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Essas palavras nunca mais foram ditas ou ouvidas naquele lar. Aliás tudo que era dito já não carregava mais sotaque algum, se não o da região. As seis horas eram indicadas apenas pela chegada do homem pois relógio algum ou televisão jamais habitaram aquele lar novamente. A mulher que tinha por ele agora respeito, ou medo (há quem diga que é tudo a mesma coisa) o recebia todos os dias com a casa limpa e um farto jantar posto a mesa. As nove da noite, o homem desfrutava sexualmente de seu corpo e ao terminar virava para o lado e dormia.
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. Ela dizia de boca cheia. É dança e é arte sabe? O som alto de sua voz invadia a sala com aquele seu sotaque paulista irritante. Os anos se passavam, o jeito de falar não. Tão pouco deixava de incomodar. Ela nem ao menos nasceu lá, morou por três anos e olhe lá, porque não fala normal que nem a gente daqui? Pensava de vez em quando. Naquelas vezes em que ele estava mais cansado, e ela parecia falar mais alto, e mais paulista. Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Aquele noventa e seis, falado daquele jeito, dava uma dor de cabeça. Ainda esboçava uma cara de interessado, mesmo depois dos sete anos passados. Sete anos, sempre a mesma história. Depois de um longo dia de trabalho não era fácil. Balançava a cabeça, abria um sorriso hora ou outra e tomava o seu café silenciosamente. Ele era quieto, ela gostava disso. Podia contar suas histórias, ele iria ouvir. Se ela pudesse ouvir o que a cabeça dele dizia. Mas a boca se recusava a falar, e as coisas seguiam assim. O trabalho também não ajudava muito, o emprego de vendedor ia ser provisório, era pra segurar as despesas até ele se acertar, fazer aquela pós e virar professor. E de repente se passaram sete anos.
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. É dança e é arte sabe? Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Esse jeito de falar, esse jeito de falar. Ele pensava enquanto mordia o canto da boca. Ela nem era tão boa assim, nunca ganhou nada, o que eu sei é que ela era uma promessa, assim como centenas de outras garotas pelo país. Podia muito bem ter voltado a treinar quando se recuperou que eu sei, eu sei, já conversei com o pessoal da cidade dela. Não. É mesmo é uma preguiçosa, que gosta de ficar sentada nesse sofá o dia inteiro vendo novela. Harmonia, graça, beleza? Não tem nem mais rastros disso, esses anos no sofá vivendo o passado deixaram ela fora de forma, seu jeito de andar era engraçado e desajeitado, seus sonhos são amarelados e tristes, estão virados ao avesso, são apenas uma lembrança morna e mentirosa. E esse sotaque, esse sotaque. A cabeça dizia, a boca não.
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. É dança e é arte sabe? Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Mal tinha fechado a porta, o ponteiro apontava seis horas da tarde, tinha trabalhado o dia inteiro. Lidando com todos os tipos de pessoas, com aquele sorriso falso na cara, aquela simpatia fajunta. Olhou pra sala e viu aquela mulher, a televisão ligada como sempre, a mesa e o café frio esperando por seu silêncio e sua cara de interesse postiça. De repente ele para. Sua cabeça parou de pensar, se cansou de tanto dizer e a boca recusar a falar, e do corpo que nada faz. Sente na boca o gosto do café, o mesmo de todos os dias, sem calor, sem açúcar e sem afeto. Vê a mulher, que vê a tevê, que mostra pra ele que é tudo igual, a mesma trama, o mesmo horário. São seis horas e o tic tac do relógio diz, são seis horas e você não fez nada hoje, são seis horas e tem tempos que você não faz nada, nada que faça você esquecer das horas e de que lembre você que está vivo. Diz. Em tic tac mas diz.
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. É dança e é arte sabe? Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Diz o homem com um sotaque paulista exagerado e nada natural. A mulher amarrada na cadeira da mesa de jantar sua frio, está assustada e surpreendida. O homem vestido com a sua velha roupa de ginástica, ilustra todo o absurdo da situação. Repetindo essas mesmas palavras com o falso sotaque e a voz de forma afeminada, ele corre pela casa rapidamente, agita as fitas da maneira mais harmoniosa que consegue. Primeiro ele quebra a televisão, depois o relógio, segue quebrando coisa atrás de coisa, repetindo as mesmas palavras, sua boca nunca falou tanto, seu sangue corre quente, a cabeça pensa: to vivo relógio filho da puta!
Gi-nástica Rí-tmica Despor-ti-va. É dança e é arte sabe? Nossa! Como eu era boa. Eu era tão bonita, tão harmoniosa. Se eu não tivesse quebrado a perna eu tinha até ido pra Atlanta em noventa e seis. Essas palavras nunca mais foram ditas ou ouvidas naquele lar. Aliás tudo que era dito já não carregava mais sotaque algum, se não o da região. As seis horas eram indicadas apenas pela chegada do homem pois relógio algum ou televisão jamais habitaram aquele lar novamente. A mulher que tinha por ele agora respeito, ou medo (há quem diga que é tudo a mesma coisa) o recebia todos os dias com a casa limpa e um farto jantar posto a mesa. As nove da noite, o homem desfrutava sexualmente de seu corpo e ao terminar virava para o lado e dormia.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Tema: Ginástica Rítmica
Judite e Juarez
I
- Se por um acaso ele chegar você me grita, tudo bem?!
- Sim.
II
O gim tônica não foi o bastante...
- O meu sinhô, veja pra mim uma ginástica rítmica.
Foi dessa forma que eu perdi o juízo, numa mesa de bar em Manoel Urbano.
I
- Se por um acaso ele chegar você me grita, tudo bem?!
- Sim.
II
O gim tônica não foi o bastante...
- O meu sinhô, veja pra mim uma ginástica rítmica.
Foi dessa forma que eu perdi o juízo, numa mesa de bar em Manoel Urbano.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Tema: Ginástica Rítmica
Ginástica rítmico-regressiva de um título sem texto sem tema sem trama centrado em um homem monótono.
Ou
De perto, não há monotonia
Ou
Muitas vezes a gente não entende o ritmo das coisas.
Segunda:
Já se tinha visto aquele rapaz andando por aquelas bandas, assistindo filmes, comendo cachorro quente, roubando motocicletas, chupando refrigerantes em canudos de duas cores, amando perdidamente uma cadela-animal, chorando copiosamente por uma cadela-mulher, ligando pros pais, rezando pros livros rasgados e jogados na privada de um banheiro público, transando com cheiros, limpando o azar, correndo de medo, morrendo de só, sozinho de tudo, sorrindo pra vida, beijando crianças, subindo em árvores, chutando maçãs, espremendo morangos morangos morangos morangos pra quê?.
Ele vendia dinheiro no mercado livre. Dez horas da manhã, diariamente anunciava NOTA DE UM REAL, R$ 2,00. Era dia 05 – datas são importantes – ele comprou uma centrífuga. Jogou todo o leite com toddy, esperando tomar marilyn monroe no café da manhã, que saiu na hora do almoço. Saiu pra trabalhar, espera aí – que trabalho? Demitiu-se ali na Tupis, antes mesmo de chegar ao prédio. Chegou em casa, tirando os tênis, correu para a televisão, abriu-a, pois queria pintar com aquelas cores ali de dentro. Pegou a tela, levou pro banheiro, de frente pro espelho encenou bruce wills. Ele era, era sim, o bruce wills, tomando um refrigerante, chupado por um canudo de duas cores.
Isso tudo na segunda.
Terça:
Alguém observava, era certo. Saiu no meio do filme, chorou pela cadela-animal no meio da rua morta – isso mesmo, rua morta; ligou pra cadela-mulher e confessou amar os pais perdidamente, rasgando a vida, sorrindo pra privada de um banheiro publico, sozinho de tudo, transando só, morrendo copiosamente nos livros, espremendo árvores, beijando maçãs, chupando morangos, limpando cheiros roubados, que azar azar azar azar azar az.
Ar, ele pediu um pouco de ar ao conseguir largar aquela rua, descer a Gonçalves Dias, chegar à Bias Forte, largar mão daquela praça.
Correu pra comprar pipoca – mas deixou o dinheiro à venda no mercado livre. De todo jeito, faltavam R$0,50. De grão em grão em grão em grão em grão em grão – um saco inteiro de pipoca.
Quarta:
Isso era quarta.
Ele não ligou pra vida, não comeu quase nada, roubou motocicletas de novo, espremeu, chupou, limpou, beijou, correu de crianças, limpou a privada, sorriu para o azar, transou com os pais, cadela-mulher e todos os livros, subiu só, rezou pelo medo, medo, medo, medo, medo, medo, medo, morreu só, sozinho de tudo, no banheiro publico.
Ou
De perto, não há monotonia
Ou
Muitas vezes a gente não entende o ritmo das coisas.
Segunda:
Já se tinha visto aquele rapaz andando por aquelas bandas, assistindo filmes, comendo cachorro quente, roubando motocicletas, chupando refrigerantes em canudos de duas cores, amando perdidamente uma cadela-animal, chorando copiosamente por uma cadela-mulher, ligando pros pais, rezando pros livros rasgados e jogados na privada de um banheiro público, transando com cheiros, limpando o azar, correndo de medo, morrendo de só, sozinho de tudo, sorrindo pra vida, beijando crianças, subindo em árvores, chutando maçãs, espremendo morangos morangos morangos morangos pra quê?.
Ele vendia dinheiro no mercado livre. Dez horas da manhã, diariamente anunciava NOTA DE UM REAL, R$ 2,00. Era dia 05 – datas são importantes – ele comprou uma centrífuga. Jogou todo o leite com toddy, esperando tomar marilyn monroe no café da manhã, que saiu na hora do almoço. Saiu pra trabalhar, espera aí – que trabalho? Demitiu-se ali na Tupis, antes mesmo de chegar ao prédio. Chegou em casa, tirando os tênis, correu para a televisão, abriu-a, pois queria pintar com aquelas cores ali de dentro. Pegou a tela, levou pro banheiro, de frente pro espelho encenou bruce wills. Ele era, era sim, o bruce wills, tomando um refrigerante, chupado por um canudo de duas cores.
Isso tudo na segunda.
Terça:
Alguém observava, era certo. Saiu no meio do filme, chorou pela cadela-animal no meio da rua morta – isso mesmo, rua morta; ligou pra cadela-mulher e confessou amar os pais perdidamente, rasgando a vida, sorrindo pra privada de um banheiro publico, sozinho de tudo, transando só, morrendo copiosamente nos livros, espremendo árvores, beijando maçãs, chupando morangos, limpando cheiros roubados, que azar azar azar azar azar az.
Ar, ele pediu um pouco de ar ao conseguir largar aquela rua, descer a Gonçalves Dias, chegar à Bias Forte, largar mão daquela praça.
Correu pra comprar pipoca – mas deixou o dinheiro à venda no mercado livre. De todo jeito, faltavam R$0,50. De grão em grão em grão em grão em grão em grão – um saco inteiro de pipoca.
Quarta:
Isso era quarta.
Ele não ligou pra vida, não comeu quase nada, roubou motocicletas de novo, espremeu, chupou, limpou, beijou, correu de crianças, limpou a privada, sorriu para o azar, transou com os pais, cadela-mulher e todos os livros, subiu só, rezou pelo medo, medo, medo, medo, medo, medo, medo, morreu só, sozinho de tudo, no banheiro publico.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Tema: Amarelo
Jogo Amarelo
A faculdade era de um lado da cidade, a casa era do outro e mais um pouco. Até que dava pra pegar um ônibus só, era daqueles especiais que vão longe mas não tão longe assim, não era azul, nem vermelho. Com o trânsito e as paradas, levava duas horas pra chegar em casa. Tinha dia que a aula estendia da manhã até o fim da tarde, quando o cansaço já batia forte, lá eu seguia a caminho do meu rotineiro ônibus amarelo. Nas ilhas de calor do centro da cidade, o trânsito apertava, o ritmo lento e a efervescência do metal e do asfalto e do metal e do asfalto, acho que é disso que o centro da cidade é feito, metal e asfalto, e na hora que a coisa esquenta parece que vai virar tudo um só. E no meio desse um só, tinha eu, e um tanto de gente respirando o mesmo ar dentro daquela lata de sardinha gigante. Depois de um longo dia de aula, o sol das quatro catalisava todo este cenário em uma sensação desagradável por onde minha mente percorria, eu era tomado de uma espécie de sono, tédio e confusão mental. O sol forte brilhava no chão e nos carros, refletia direto em meus olhos, minha vista era tomada por um tom amarelado e até as gotas de suor do meu corpo resplandesciam. A cabeça não funcionava direito. Quando o tempo parecia que tinha parado, eu finalmente chegava no meu ponto, ainda atordoado seguia o caminho de casa para por fim terminar meu dia.
Certo dia, um daqueles dias bem cansados, provavelmente uma quinta feira, onde o corpo já pede pelo fim de semana, onde tampouco receberá descanso. Eu estava sentado no meu acento de sempre, dentro do ônibus amarelo, fazendo minha cara de poucos amigos, eu nem sei porque eu fazia aquela cara, no final das contas o ônibus ia acabar enchendo e alguém ia ter que sentar ali de qualquer forma, acho que era pra adiar a desgraça. Fim do dia, cansaço, trânsito, calor, e uma pessoa me espremendo naquele espaço mínimo? É, desgraça. Minha técnica já seguia infálivel por mais de três pontos, eu desfrutava com alegria o meu respirável espaço, acho que a situação provavelmente me fez amolecer, quando eu mal reparei aquela figura já estava sentada do meu lado. Logo não fui com sua cara. Sua roupa, seu cabelo, seus trejeitos, e o pior de tudo, aquele olhar de satisfação. Ele parecia estar desfrutando aquele momento, por acaso ele não sabia no que ele estava se metendo? O caminho que ele seguiria? Ele só poderia estar zombando de mim, fiquei enfurecido de ver alguém se divertindo daquele jeito ali, no meio de todas aqueles rostos cansados. Ele trazia aquele pequeno sorriso estampado, com olhos arregalados e atentos, de vez em quando ele até ousava dar risadinhas. Como alguém podia ter tanta vida no final da semana? Era tão injusto.
Uma semana se passara, e novamente era quinta feira, e assim como todas as outras quintas feiras daqueles tempos eu tinha em mãos o fim do dia, o cansaço, o trânsito e o calor. Firmemente eu mantia minha cara-não-sente-aqui quando então, chegando no quarto ponto da rota, novamente ele aparece. Não era possível, da última vez tive de saltar alguns quarteirões antes e caminhar pra casa. Não dava pra tocar o caminho todo próximo daquele ser reluzente. Minha estratégia tinha se voltado contra mim, afastando as pessoas acabei por deixar o lugar disponível para meu inimigo. Não tinha mais nada a se fazer, abaixei a cabeça decepcionado e praguejei em voz baixa enquanto ele se sentava ao meu lado. O ônibus seguiu um pouco, e então, ele esbarra com seu cotovelo em meu braço, segurei a raiva e fingia olhar a vista, mendigos, carros, asfalto, mendigos, carros, asfalto. Então ele esbarra novamente, percebi então que ele não estava esbarrando e sim me cutucando, impaciente e nervoso eu olho para ele que retribui o olhar com um sorriso estranho. Não podia ser? Além de tudo ele ia me paquerar? Pior não podia ficar, sem reação alguma não consegui escapar nem uma palavra, foi então que ele me apontou com os olhos a garota que estava atravessando a roleta. Mas que bela mini-saia, pernas douradas e curvas perfeitas. Quando olhei de volta para ele, estava sorrindo e balançando a cabeça positivamente, automaticamente escurreguei um sorriso amarelo de volta e me voltei para a janela. Mendigos, carros, asfalto, mendigos, carros, asfalto, mas eu não estava mais atento a isso, agora eu tinha na cabeça a imagem daquele par de coxas. Eu me sentia melhor. Passado certo tempo da viagem, ele me cutuca novamente, dessa vez já olho direto para a roleta, essa era mediana, um pouco de álcool e ela até se ajeitava. Olhei para ele que fazia uma cara de dúvida, respondi apenas com expressão facial, um talvez, aparentemente ele teve a mesma resposta pois respondeu com um leve balanço de cabeça inclinado. Me voltei para a janela. Quando cheguei no meu destino, já tínhamos avaliado algo em torno de sete mulheres.
Na próxima quinta feira ele estava de volta, novamente ao meu lado, e novamente jogamos. Avaliávamos cada mulher que passava por aquela roleta, nos comunicávamos precisamente apenas com expressões faciais. Boa, médio, ruim, maravilhosa. Éramos discretos, e pra se comunicar a gente usava o que dava, olho, sobrancelha, ombro, mão, boca. O jogo era mudo. E assim se procedeu, na outra semana, e na outra, e na outra. Era bom, logo ao fim da semana, quando eu estava mais cansado, eu tinha a ajuda do meu novo amigo, nosso lance despistava a situação negativa de voltar pra casa no ônibus amarelo e incrementava a rotina. O tempo passava mais rápido, o calor parecia menor e até mesmo no centro do centro, onde ocorria a grande desova e antigamente eu respirava aliviado, eu nem notava mais. As semanas passavam e aprimorávamos nossa técnica, os métodos de avaliação eram mais variados, o jogo se tornou mais prazeroso. A viagem se tornou rápida.
E foi assim, numa quinta feira qualquer, esperando meu amigo, com seu lugar reservado e animo alto pro jogo, que o onibus passou pelo quarto ponto e nada. Uma outra pessoa qualquer sentou em seu lugar. Fiquei chateado, mas pensei que pudesse ser um imprevisto qualquer, talvez ele estivesse doente, talvez ele não tenha tido aula, talvez isso, talvez aquilo. Mas independente de tudo, na outra semana, nada do meu amigo. No começo a esperança era grande, eu o imaginava entrando em outro ponto mais adiante, chegando na próxima semana, porém, eventualmente eu me cansei. Tentei jogar o jogo sozinho, mas não funcionava, era entediante e eu facilmente me dispersava. Em momentos de desespero cheguei a tentar com pessoas alheias que surgiam ao meu lado, mas não adiantava, elas nunca entendiam e sempre me olhavam torto no final das contas. Aos poucos me desprendi da ideia e voltei para o ritmo do tédio, cansaço, calor e sentir o tempo parar. Por muito tempo senti a falta do meu grande amigo do ônibus amarelo, minha amizade mais sincera e verdadeira. Sem nunca ter trocado uma palavra, nos entendíamos perfeitamente, funcionávamos em uma sincronia perfeita, nos divertindo da nossa maneira, sem buscar nos aprofundar em diálogos, desabafos e apoio. Apenas sentar ali e jogar o jogo era suficiente, apenas desfrutar a companhia um do outro. Cheguei a pensar se ele pensava em mim, fiquei com um pouco de rancor, mais isso é besteira, meu sentimento é só meu. Meu grande amigo do ônibus amarelo. E nem seu nome eu sabia.
A faculdade era de um lado da cidade, a casa era do outro e mais um pouco. Até que dava pra pegar um ônibus só, era daqueles especiais que vão longe mas não tão longe assim, não era azul, nem vermelho. Com o trânsito e as paradas, levava duas horas pra chegar em casa. Tinha dia que a aula estendia da manhã até o fim da tarde, quando o cansaço já batia forte, lá eu seguia a caminho do meu rotineiro ônibus amarelo. Nas ilhas de calor do centro da cidade, o trânsito apertava, o ritmo lento e a efervescência do metal e do asfalto e do metal e do asfalto, acho que é disso que o centro da cidade é feito, metal e asfalto, e na hora que a coisa esquenta parece que vai virar tudo um só. E no meio desse um só, tinha eu, e um tanto de gente respirando o mesmo ar dentro daquela lata de sardinha gigante. Depois de um longo dia de aula, o sol das quatro catalisava todo este cenário em uma sensação desagradável por onde minha mente percorria, eu era tomado de uma espécie de sono, tédio e confusão mental. O sol forte brilhava no chão e nos carros, refletia direto em meus olhos, minha vista era tomada por um tom amarelado e até as gotas de suor do meu corpo resplandesciam. A cabeça não funcionava direito. Quando o tempo parecia que tinha parado, eu finalmente chegava no meu ponto, ainda atordoado seguia o caminho de casa para por fim terminar meu dia.
Certo dia, um daqueles dias bem cansados, provavelmente uma quinta feira, onde o corpo já pede pelo fim de semana, onde tampouco receberá descanso. Eu estava sentado no meu acento de sempre, dentro do ônibus amarelo, fazendo minha cara de poucos amigos, eu nem sei porque eu fazia aquela cara, no final das contas o ônibus ia acabar enchendo e alguém ia ter que sentar ali de qualquer forma, acho que era pra adiar a desgraça. Fim do dia, cansaço, trânsito, calor, e uma pessoa me espremendo naquele espaço mínimo? É, desgraça. Minha técnica já seguia infálivel por mais de três pontos, eu desfrutava com alegria o meu respirável espaço, acho que a situação provavelmente me fez amolecer, quando eu mal reparei aquela figura já estava sentada do meu lado. Logo não fui com sua cara. Sua roupa, seu cabelo, seus trejeitos, e o pior de tudo, aquele olhar de satisfação. Ele parecia estar desfrutando aquele momento, por acaso ele não sabia no que ele estava se metendo? O caminho que ele seguiria? Ele só poderia estar zombando de mim, fiquei enfurecido de ver alguém se divertindo daquele jeito ali, no meio de todas aqueles rostos cansados. Ele trazia aquele pequeno sorriso estampado, com olhos arregalados e atentos, de vez em quando ele até ousava dar risadinhas. Como alguém podia ter tanta vida no final da semana? Era tão injusto.
Uma semana se passara, e novamente era quinta feira, e assim como todas as outras quintas feiras daqueles tempos eu tinha em mãos o fim do dia, o cansaço, o trânsito e o calor. Firmemente eu mantia minha cara-não-sente-aqui quando então, chegando no quarto ponto da rota, novamente ele aparece. Não era possível, da última vez tive de saltar alguns quarteirões antes e caminhar pra casa. Não dava pra tocar o caminho todo próximo daquele ser reluzente. Minha estratégia tinha se voltado contra mim, afastando as pessoas acabei por deixar o lugar disponível para meu inimigo. Não tinha mais nada a se fazer, abaixei a cabeça decepcionado e praguejei em voz baixa enquanto ele se sentava ao meu lado. O ônibus seguiu um pouco, e então, ele esbarra com seu cotovelo em meu braço, segurei a raiva e fingia olhar a vista, mendigos, carros, asfalto, mendigos, carros, asfalto. Então ele esbarra novamente, percebi então que ele não estava esbarrando e sim me cutucando, impaciente e nervoso eu olho para ele que retribui o olhar com um sorriso estranho. Não podia ser? Além de tudo ele ia me paquerar? Pior não podia ficar, sem reação alguma não consegui escapar nem uma palavra, foi então que ele me apontou com os olhos a garota que estava atravessando a roleta. Mas que bela mini-saia, pernas douradas e curvas perfeitas. Quando olhei de volta para ele, estava sorrindo e balançando a cabeça positivamente, automaticamente escurreguei um sorriso amarelo de volta e me voltei para a janela. Mendigos, carros, asfalto, mendigos, carros, asfalto, mas eu não estava mais atento a isso, agora eu tinha na cabeça a imagem daquele par de coxas. Eu me sentia melhor. Passado certo tempo da viagem, ele me cutuca novamente, dessa vez já olho direto para a roleta, essa era mediana, um pouco de álcool e ela até se ajeitava. Olhei para ele que fazia uma cara de dúvida, respondi apenas com expressão facial, um talvez, aparentemente ele teve a mesma resposta pois respondeu com um leve balanço de cabeça inclinado. Me voltei para a janela. Quando cheguei no meu destino, já tínhamos avaliado algo em torno de sete mulheres.
Na próxima quinta feira ele estava de volta, novamente ao meu lado, e novamente jogamos. Avaliávamos cada mulher que passava por aquela roleta, nos comunicávamos precisamente apenas com expressões faciais. Boa, médio, ruim, maravilhosa. Éramos discretos, e pra se comunicar a gente usava o que dava, olho, sobrancelha, ombro, mão, boca. O jogo era mudo. E assim se procedeu, na outra semana, e na outra, e na outra. Era bom, logo ao fim da semana, quando eu estava mais cansado, eu tinha a ajuda do meu novo amigo, nosso lance despistava a situação negativa de voltar pra casa no ônibus amarelo e incrementava a rotina. O tempo passava mais rápido, o calor parecia menor e até mesmo no centro do centro, onde ocorria a grande desova e antigamente eu respirava aliviado, eu nem notava mais. As semanas passavam e aprimorávamos nossa técnica, os métodos de avaliação eram mais variados, o jogo se tornou mais prazeroso. A viagem se tornou rápida.
E foi assim, numa quinta feira qualquer, esperando meu amigo, com seu lugar reservado e animo alto pro jogo, que o onibus passou pelo quarto ponto e nada. Uma outra pessoa qualquer sentou em seu lugar. Fiquei chateado, mas pensei que pudesse ser um imprevisto qualquer, talvez ele estivesse doente, talvez ele não tenha tido aula, talvez isso, talvez aquilo. Mas independente de tudo, na outra semana, nada do meu amigo. No começo a esperança era grande, eu o imaginava entrando em outro ponto mais adiante, chegando na próxima semana, porém, eventualmente eu me cansei. Tentei jogar o jogo sozinho, mas não funcionava, era entediante e eu facilmente me dispersava. Em momentos de desespero cheguei a tentar com pessoas alheias que surgiam ao meu lado, mas não adiantava, elas nunca entendiam e sempre me olhavam torto no final das contas. Aos poucos me desprendi da ideia e voltei para o ritmo do tédio, cansaço, calor e sentir o tempo parar. Por muito tempo senti a falta do meu grande amigo do ônibus amarelo, minha amizade mais sincera e verdadeira. Sem nunca ter trocado uma palavra, nos entendíamos perfeitamente, funcionávamos em uma sincronia perfeita, nos divertindo da nossa maneira, sem buscar nos aprofundar em diálogos, desabafos e apoio. Apenas sentar ali e jogar o jogo era suficiente, apenas desfrutar a companhia um do outro. Cheguei a pensar se ele pensava em mim, fiquei com um pouco de rancor, mais isso é besteira, meu sentimento é só meu. Meu grande amigo do ônibus amarelo. E nem seu nome eu sabia.
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